sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Meu garoto bossa nova rock n'roll

Anda a passos rápidos, com um dos braços longos balançando e outro tentando arrumar uns três ou quatro livros que teimam em cair. Ele parece ter menos de 20 anos, bem desajeitado, como se não coubesse no próprio corpo.

Acho que a alma desse moço cresceu mais que o corpo dele e transborda pelos olhos. Ele é dono de um olhar aflito e inquieto, de quem quer descobrir tudo, mas ainda não sabe o quê. Olhos negros e pequenos que não tem firmeza, não encara; parece tímido, assustado e até com certa melancolia.

Debaixo daquele par de jabuticabas, enfeitado com longos cílios, existe uma briga interna e constante entre um menino de pés descalços do interior e um homem cheio de desejos, que costuma morder com força o carnudo lábio inferior.

Se fosse música seria uma bossa, daquelas que a Miucha ou o João Gilberto cantariam baixinho, de mansinho, com um molejo leve e sedutor. Mas, acho que o outro lado dele toca rock n’roll, que quer gritar e tocar guitarra com os dentes.

E o meu garoto bossa nova tem a pele mais lisa que já vi, quase sem barba, com a cor rosada do pêssego. Um contraste bonito com os negros olhos. O sorriso ainda não vi direito. Ele só esboça de canto, com vergonha. Difícil de se alcançar. Deve guardar para as ocasiões especiais.

Ele não é alto e magro e usa jeans e camiseta listrada. Reparei que rói as unhas, mas moderadamente. Tem dedos finos, feitos para tocar música ou mulher com delicadeza. Mas, só o vi ainda enrolando os dedos nos anéis dos seus cabelos castanhos.

O homem já tem ombros largos e braços fortes. O menino ainda não consegue olhar de frente. Por isso, não reparou que todos os olhares dos corredores, ônibus e rua estão sob ele.

Por que ser jornalista?

As capas das revistas nas bancam me perguntam: Quando a vida começa? Lula, Alckmin ou Heloisa Helena? De quem é a culpa: Israel ou Hizbollah? Ser ou não ser vegetariana? Apoio ou não os sem-terra? Defedenria a propriedade privada se fosse a minha? É justo ou não cota racial nas universidades? Será que no fundo sou racista? Fazer ou não uma plástica no nariz?

Alguma dessas capas poderiam ter sido escritas por mim, uma estudante, quase jornalista. Mas eu não saberia responder a nenhuma dessas questões. Não sei quando a vida começa, muito menos quem tem culpa pela guerra, menos ainda em quem votar para presidente. Como leitora e como jornalista, eu quero todas as respostas, mas tenho todas as dúvidas, todos os conflitos, todas as dificuldades para entender a complexidade do mundo em que vivo.

E justamente por não ter certezas, mas sim sede de entender, aprender e achar as respostas, procurei o jornalismo como minha cura. Com o jornalismo posso conhecer os diferentes mundos, desde as razões dos sem-terra que se unem ao movimento para não morrer de cansaço após cortar cana por horas para receber dois reais por cada tonelada cortada; até os motivos do canavieiro que com o álcool que produz pode tornar o Brasil uma potência energética e que para investir precisa da segurança de não ter suas terras ocupadas ou destruídas. Quero ouvir quem venceu e quem foi vencido. Quero mostrar o outro lado para quem não quer ver (comer carne pode sim ser saudável) e dar voz a quem não tem horário gratuito em rede nacional (alguém que parou de comer carne, porque ela é cara).

Assim, busco entender o homem em suas diferentes facetas e expor as dúvidas que me afligem. Quem sabe alguém encontre a sua resposta, quem sabe alguém também passe a duvidar.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Não acredite em milagres ou Cartilha contra corrupção

Gilberto Dimenstein escreveu na FSP de domingo uma receita de vacina contra sanguessugas e outros corruptos. Os ingredientes foram descobertos por empírismos da população de Ribeirão Bonito, cidade de 12 mil habitantes no interior de São Paulo.
Você pode achar que isso só dê certo em uma cidade tão pequena, pouco mais de 10% da população de bairros paulista como Capão Redondo ou Grajaú. Mas, poderiamos começar com o vereador que representa o nosso bairro.

O mais umportante é que Ribeirão Bonito não acreditou em milagres, não esperou o Salvador da Pátria e tampouco acreditou que votando em ciclano ou invés de fulano estariam livres da corrupção. A população de Ribeirão Bonito mostrou consciência de que o governante é nada mais que o seu funcionário, não teve preguiça, e soube que a cidade era o seu patrimônio. Olha só a história de Ribeirão Bonito, fiquei envergonhada de nunca tentar fazer algo parecido.

Uma vacina contra sanguessugas

Na experiência de Ribeirão Bonito desmonta-se a ilusão de que se vai conseguir combater a corrupção e o desperdício, generalizados, apostando em governantes com discursos salvacionistas ou na eficiência da polícia e do Judiciário. Investigações feitas por amostragem pela Controladoria Geral da União revelam irregularidades em 90% dos convênios da União com os municípios. É uma profusão de descalabros: superfaturamento de preços, benefícios a familiares de prefeitos, baixa qualidade dos produtos e serviços adquiridos, obras pagas e não entregues.

É preciso ser desinformado para imaginar que uns poucos indivíduos na Polícia Federal, tribunais de contas ou Ministério Público conseguirão dar conta desse serviço. Na maioria das vezes, o combate à corrupção resvala mais para o show, amplificado pelos meios de comunicação, do que para a montagem de mecanismos eficazes para evitar a roubalheira.

Moradores e ex-moradores (gratos pelo bom nível de educação que tiveram na cidade) criaram uma associação (Amarribo) para revitalizar Ribeirão Bonito, estimulando uma vocação econômica e preservando o patrimônio histórico. Os planos mudaram de rumo. Perceberam que o prefeito vinha dando sinais de enriquecimento incompatível com sua renda. Souberam que seu veículo era de um fornecedor de carne para as escolas. As merendeiras diziam, porém, que quase não havia carne na refeição dos alunos. Descobriu-se também que a prefeitura comprava a gasolina para abastecer a frota oficial numa cidade de Minas, bem longe dali. E por um preço mais caro do que a vendida no posto em frente à prefeitura. Resolveu-se focar sua ação, naquele momento, no desvio de recursos. A população não estava mobilizada nem interessada; o prefeito controlava quase toda a Câmara e a imprensa.

Como o grupo de combatentes era composto de professores, contadores, comunicadores e advogados, montou-se uma operação de guerra: 1) coletaram-se os indícios de desvio de dinheiro; 2) com base nessa coleta consistente, a polícia, o Ministério Público e o Judiciário foram acionados; 3) furando a barreira da mídia local, divulgaram-se os fatos por meio de panfletos e convocaram-se audiências públicas; 4) diante das evidências e da pressão popular, os vereadores foram sensibilizados para criar uma comissão de investigação na Câmara.

O prefeito perdeu o cargo e acabou na cadeia. O mais importante é que se criaram mecanismos permanentes de fiscalização que já resultaram, por exemplo, na redução e melhor aplicação de gastos públicos - a Câmara passou a usar apenas 1,5% do orçamento municipal, sendo que a lei permite até 8%. Desse embate, surgiu uma cartilha para ensinar os cidadãos o passo a passo na prevenção e no combate à corrupção.

A fórmula de Ribeirão Bonito contra os sanguessugas não tem mágica. É composta por quatro ingredientes: 1) a qualificação educacional dos indivíduos; 2) a disposição de trabalhar em conjunto em cima de objetivos comuns; 3) sentir-se dono da coisa pública e fiscalizá-la permanentemente, o que exige uma noção de que cidadania é não só direitos mas deveres; 4) não esperar pelas autoridades para que sejam tomadas atitudes moralizadoras. Em qualquer comunidade que use essa receita, a corrupção provavelmente não acabará, mas será muito mais difícil roubar e ficar impune.