terça-feira, 23 de maio de 2006

Medo!

Procura-se os culpados? Quem procura os inocentes. Depois de tanto terror, a galera dos apês tava com sangue nos olhos, desejo de vingança. "Tem de matar tudo" - ouvi um monte de vezes na segunda do terror. Então, serviço feito. Se é sangue que os que pagam impostos querem, é sangue que vão ter. O que importa são os números.
O pior que chamam Coronel Ubiratã, Fleury, Maluf, tudo pra comentar o caso, pra incitar ainda mais o ódio da população. Tenho medo de que o nazismo impere, se é que já não impera.
Quando se mata polícia, é fácil apurar se eram mesmo policiais, eles tem carteirinha e tudo. Bandido não tem crachá de bandido. E aí?
Segue o alerta feito no blog do Ferrez, escritor que não defende bandido, defende Capão Redondo. Mas, convido a todos que entrem em seu blog e vejam os comentários recebidos. (www.ferrez.blogspot.com)

A Policia Militar e a Policia Civil afetados com a onda de matança, estão fazendo da nossa periferia um estado prá lá de nazista, já são mais de 100 "suspeitos" assassinados, e nenhum deles é PCC.
Só de colegas, foram mortos 4, isso pra não contar os que estão no hospital.
nenhum deles tinha passagem, por isso apelo para que divulguem a real de que o acordo não foi feito com o povo, o povo tá morrendo, sendo baleado pelas costas, ao entregar pizza, ao voltar para casa.
a policia covarde, treme perante o olhar do ladrão, mas mata sem dó quem está simplismente voltando para casa.
isso é uma vergonha, e se é o trabalho deles, tá na hora dagente fazer o nosso, reagir com cidadania, mostrando que não queremos essa matança.
LEI MARCIAL PARA POBRES INOCENTES FOI DECRETADA.
Ferréz

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Gostosa Ilusão

Cadernos encapados com papel xadrez, cartilha com ilustrações, lápis de cor apontados. Tudo pronto para ir a escola e eu mal podia me conter de tanta ansiedade. O uniforme cheirando amaciante e enfim...a fatídica bota ortopédica que eu deveria usar para não pisar torto no chão. Cano longo, grande e feia, depois apelidada de Botão Muche.
As outras meninas da escola começaram a chegar. Tinham rostos bem feitos, tranças, e... sapatos de bonecas ou tênis multicoloridos que acendiam luzes a cada vez que pisassem no chão. As minhas botas só apertavam ainda mais os meus pés.
Subi correndo para a sala com a placa de Pré II. Uma professora de sorriso acolhedor nos recebia e eu sentei na primeira carteira, tentando esconder os meus pés debaixo da mesa. A Tia Leda pediu que nos apresentássemos, começando por mim. Mãos suadas, voz fraca e olhos na bota. Disse meu nome rápido e a professora pediu que eu repetisse (ah, não). Assim se seguiram várias crianças, muitas tímidas como eu, até que chegou a vez de Gabriel, o menino lindo da sala. Olhos cor de mel, cabelos de índio, pele morena. Só que foi a professora quem o apresentou para a classe.
Achei que Gabriel era mais envergonhado do que eu. No recreio, sentei ao lado dele e ofereci meu sanduíche. Ele só balançou a cabeça, sinalizando que ‘não’. Perguntei quantos anos ele tinha e ele nem olhou pra mim. Na saída da aula, mamãe me contou que Gabriel era um menino especial, porque não ouvia e só falava por sinais. Fiquei feliz, afinal eu só tinha o pé torto.
No segundo dia de aula, eu já rabiscava tudo, paredes, carteiras e cadernos. Queria muito escrever algo que Gabriel pudesse entender. Mas, eu ainda não estava alfabetizada. Naquele dia, Gabriel deixou um pedaço de papel em cima da minha carteira, que só abri em casa. Não sabia o que estava escrito, olhava, olhava, e...adivinhei. Sentei ao lado da minha irmã caçula e “li” o bilhete de Gabriel.
“Gosto muito de você. Você é muito bonita e sua bota não é tão grande e feia. Podemos ser amigos. Assinado Gabriel”.
Contei tantas vezes para minha irmã e gostava tanto dessa fantasia que não me interessava pedir que a minha mãe lesse o bilhete para mim e aquela história acabasse.
No dia seguinte, a Tia Leda perguntou se eu entreguei o bilhete para a minha mãe. “Então entregue a ela. É um comunicado da escola sobre os horários de entrada e saída de alunos” - disse a professora.
Eu tinha razão, a invenção era mais divertida que a realidade. Depois que aprendi a ler, a fantasia era ainda mais freqüente na minha vida. Leio vários livros, vou ao cinema e minha maior frustração é ainda quando a luz se acende, ou termino de ler a última página do livro, e volto para o meu quarto sem a gostosa ilusão de uma história inventada.