terça-feira, 30 de janeiro de 2007

São São Paulo Meu Amor (e meu horror)


Dia 25/01 - Aniversário de São Paulo. Show dos Mutantes de graça no Parque da Independência. A melhor banda de rock nacional, uma das poucas que souberam ser original e fazer rock n'roll, estavam de volta, sem Rita Lee, mas de volta.
Sabotagem, Panis et Circense, Balada do Louco, Meio Desligado e outras não tão famosas, foram feitas na década de 70, mas eram cantadas por todos, emocionados, como hinos que valem para qualquer geração.

Foi muito bom ver gente que pagaria R$500 para vê-los novamente, e a galera que só foi porque era de graça mesmo. Era muito legal, ver meus amigos de vinte anos curtindo a valer e casais de 60 anos que levaram banquinhos para acompanhar a banda. Ninguém queria perder. O monumento da independencia atrás e um Dom Pedro I no palco. IRADO! Presentão para SP. Lembrei que tem coisas que só essa cidade faz por você. Show dos Mutantes é uma delas.

Fim do show. A chuva que ameaçou não resolveu cair. Tava fresquinho, nem quente, nem frio, agradável. E falei pra Mariana: "Que noite linda!". Ela, depois de 4 anos no interior, olhou pra cima e notou "Mas não tem estrelas". É verdade, sou acostumada a não ver estrelas, até esqueço que elas existem em algum lugar.

É tem coisas que só São Paulo faz por você, não ver estrelas é uma delas. Lembrei porque odeio São Paulo.

Quando cheguei por aqui

Juro, foi mais comovente do que ver o mar pela primeira vez. Minha chegada a esta cidade foi de bagunçar o coração, coisa de cinema.

“Cresce logo, menino, pra ir pra São Paulo “, era só o que eu ouvia desde pirralho. “Toma o remédio para crescer e ir pra São Paulo “. Chantagem materna infalível –só assim eu tomava aquela Emulsão de Scott, à base de óleo de fígado de bacalhau, argh!

Meus tios e primos, que já moravam por aqui, chegavam de férias cheios de histórias de grandezas paulistanas. O “tatuzão”, cavando para fazer o metrô, era a coisa que mais me impressionava. Eu sonhava com aquele bicho gigante. “Estou trabalhando debaixo da terra”, dizia um parente. “Lá é tão frio que chove até pedra de gelo”, assombrava outro.

Aquelas narrativas nos deixavam, matutos do Sítio das Cobras (Santana do Cariri) e Aratamas (Assaré), maravilhados. Será que um dia vamos conhecer essa terra? Será? Aquelas histórias, fábulas fantásticas, acabaram funcionando como um hormônio e tanto para o crescimento.

Quando o ônibus chegou à rodoviária, em janeiro de 1980, eu enxugava, com a manga da camisa, algumas rápidas lágrimas que escaparam pelas brechas da macheza semi-árida. Um alumbramento que me fazia enxergar um Sena onde havia apenas um acabrunhado Tietê. Eu já era um mal-diagramado rapagote, sim, feio mesmo, mais feio que arte moderna.

Peguei o metrô e sofri para achar a casa do meu tio Alberto, no Parque São Rafael, zona leste, ainda um descampado. Só a avenida Sapopemba era uma eternidade. “Ô Sãopaulão grande da peste!”, eu matutava. Dias depois, gastava o meu espanto de “novo baiano” na praça da Sé, no viaduto do Chá, na República, nos cines e teatros pornôs do Centrão; na rua Augusta esperava anoitecer e subia e descia só recolhendo imagens que seriam devidamente “escaneadas” na cama antes de pegar no sono.

Passeava sozinho por SP, exercendo a bela arte de chutar tampinhas –exercício assimilado dos vagabundos dos contos de João Antônio– e a leseira de abestalhar-me com as mulheres da cidade. Lindas, elegantes, estilosas… mas na delas. “Quase nenhuma te encara na rua, são econômicas do olhar”, refletia. “Só devem dar bola pra gente nas repartições, nas firmas… jamais nas ruas!”

Durante a temporada de um mês, só as generosas moças da Augusta, as “secretárias das calçadas” como dizia um sucesso brega da época, sorriram para mim. Coitado daquele rapaz, voltou para o Nordeste mais seco e necessitado do que retirante de quadro de Portinari.

No dia 1º de abril de 1990, depois de ter morado em Juazeiro (95 anos), Recife (469 anos) e Brasília (46), estava eu de volta, agora para ficar. Continuei achando as moças lindas. Agora já me sorriam nos corredores da firma. Mas foram necessários uns seis meses para que Maria Ligia, meu primeiro alumbramento da volta a SP, acreditasse na minha conversa de homem arriado de paixão. Que beleza! O Tietê voltou rapidinho à sua condição de Sena.

Para completar a euforia, descobri os sabiás da megalópole. Em pleno largo de Santa Cecília, acordava ouvindo esses danados. Ainda hoje me impressiona como tem sabiá nesta cidade. Tem mais sabiá aqui do que na mata atlântica inteira. Minha terra tem Palmeiras, São Paulo , Corinthians… onde canta o sabiá -como eu adorava recitar essa parodiazinha ridícula, meu prezado Gonçalves Dias.

Muitas Augustas, Angélicas e Consolações depois… Muitas bistecas e muitos engradados do Sujinho depois, vez por outra me pego ranzinza, reclamando e mal-dizendo a cidade. Como o mais autêntico dos paulistanos. Mas aí basta lembrar do que diz a minha mãe, aquela que me empurrava a Emulsão de Scott, para que o mau humor com a cidade de todos os povos se dissolva num segundo. Quando dona Maria do Socorro me ouve xingando essa terra, fala duro, com firmeza, num corretivo, como na infância: “Meu filho, fecha essa boca, você num sabe que São Paulo foi quem deu tudo que a nossa família tem?”. Sabedoria de mãe. Parabéns SP, e desculpa ai por qualquer coisa.

Xico Sá

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Inferno


Visão do inferno

Pessoas presas a correntes, atreladas a bolas de ferro pesadas. Têm dificuldades para fazer movimentos, o esforço para dobrar um braço ou uma perna é revelado nos grunhidos, onomatopéias e caretas de dor.

As pessoas correm mas não conseguem sair do lugar. Outros ainda carregam barras de ferro para cima e para baixo, dobrando-se em gemidos de dor a cada vez, com um carrasco por perto colocando mais e mais peso.

O clima é quente, todos suam muito. O barulho é enorme, como se um bate-estaca estivesse sobre todos.

Há gente de todos os tipos. Alguns parecem estar acostumados. Entre um esforço e outro, sorriem em uma espécie de auto-compaixão. Iludidos, coitados. (definição do Luis Mauro Sá)


Visão do inferno atualizada. Sou sedentária e convicta.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Eu quero ter vista pra cachoeira

Passei o fim de semana acampada na República da Mariana em Ribeirão Preto. Além dos amigos que foram comigo de São Paulo, também dividiam os colchões pela sala e pelos quartos uma família inteira de Cabo Verde, uma cidade de 12 mil habitantes em Minas Gerais. Olha, fiquei xonada co sotaque deles, uai. Na próxima encarnação quero ser mineira.

A gente tava tomando o cafezim aguadim na cozinha, quando uma das meninas fala para a amiga: "Sabe aquela cachoeira que dá pra ver lá da janela de casa, então ...." E falou normalmente, como se todo mundo tivesse vista para cachoeira. Eu e a Lili (paulistana como eu) nos olhamos imediatamente de boca aberta. Como alguém pode falar isso sem se gabar, ou com a certeza de que é a pessoa mais feliz do mundo? Não, a menina falou com naturalidade, o assunto nem era a tal cachoeira. Ai, ai, quando eu crescer quero ter a janela da minerim. Baum demais.

E por falar em Minas, eu queria ser a Fernanda Takai.

"Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha
Mais sincero o bom dia (...)
Café tá quente no fogo
Barriga não tá vazia
Quanto mais simplicidade
Melhor o nascer do dia"
(Quem não foi, vá ver um show do Pato Fu, a performance dessa música Simplicidade já vale o ingresso)

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Não conheço Cabo Verde, mas tô achando que deve ser o tal Vilarejo da Marisa Monte

"Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for"

Sobre a tecnologia e o amor

É fato, a tecnologia muda a nossa vida. É só pensar como alguém (ou eu mesma) vivia sem o Google, por exemplo. Inimaginável. Pois é, além da possibilidade de encontrar sua alma gêmea pela internet (algo que não sou muito adepta e conheço poucas pessoas corajosas a esse ponto), a tecnologia mudou os relacionamentos e até as nossas fossas. Todo mundo já se trancou no quarto, deitou na cama, deixou tocar uma música muito dor de cotovelo e chorou de soluçar, normalmente isso vem depois de um famoso pé na bunda. Nessas horas, o Chico tem várias músicas adequadas, como:
"Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu".

Bem, com a tecnologia tudo é diferente. Quando isso acontecer de novo comigo, basta eu colocar as músicas que tinhamos no meu mp3, ele coloca no aparelho dele e resolvido. A tecnologia nos deixa mais bem preparados para as desilusões. Isso pode parecer frio, individualista e sem poesia, mas a tecnologia também nos prepara para a reconciliações.

A Adriana Calcanhoto (especialista nas mais lindas músicas para esses momentos) canta "Devolva-me o retrato que eu te dei". Hoje em dia, tudo é mais prático. Suas fotos são digitais, você joga tudo na lixeira, dispara um e-mail, nem precisa passar aquele sufoco que é se reencontrar. Aí se decidir voltar para os braços do amado, é muito simples, basta clicar em restaurar e suas fotos estão salvas novamente, nada de fita adesiva ou cola.

A tecnologia e a amizade: "Os scraps e os SMSs substituíram os cartões.
E os cartões já haviam substituído os abraços".

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Angela e Duque

Faz quase 6 anos que ouvi esse texto no show da Ana Carolina no Sesc Belenzinho. Ela tava começando a carreira, lançando o segundo CD, não tinha sido capa da Veja (embora sua orientação era evidente), nem tinha recebido CD de Ouro. O texto é da Elisa Lucinda, a dra Selma da novela Páginas da Vida, aquela negra linda de olhos verdes. Na época, apesar da minha pouca idade, eu me identifiquei, e acho muito difícil, em algum momento da nossa vida isso não acontecer. Todo mundo quer ter esse animalzinho, essa intimidade, essa cumplicidade.
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Eu a vejo quase todas as manhãs. Não é exatamente bonita. Aliás ela é de uma feiúra estranha como se carregasse uma beleza espalhada em si, nos gestos e não nos traços exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada perenemente pelo seu cão.
Um pastor alemão com cara de bom companheiro. E o é. Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela, brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também, essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca de não-solidão com esse cachorro específico; gosta dele, ri: Não Duque, assim não, deixa o moço, Duque, me espere. Não vá na minha frente assim, cuidado com o carro, menino. Ele a olha como quem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes que só vendo.
Nos encontramos no elevador e eu: - Vocês se divertem tanto, é tão bonito. - É, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estava trabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Fiquei agachada na calçada só namorando ele. Decidimos que ele viveria comigo. Tudo aconteceu “naturalmente”, ela frisou, como se quisesse dissipar de mim qualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmo elevador, ela, eu e Duque. O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do último elevador nosso: - Tenho certeza que ele é de câncer. É muito sensível. Só falta falar. Né Duque? ... ele não é lindo? Eu disse: Lindíssimo. E você que signo é? - Ah, sou capricórnio mas com ascendente em câncer, combina sim. Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela oferecia de propósito e distraidamente a imordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele.
Quase não entendo de cães. Você tem medo... ô não ofenda ele; Duque entende pensamentos e não gostou do que você pensou. Jamais me morderia, jamais me trairia. Né Duque? Senti o pensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Ao final da tarde, avistei pela janela Duque e Angela indo ver o crepúsculo na praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos, sob a noite estrelada; ela com fitas de vídeo penduradas ao braço; sempre conversando com ele. Tenho inveja de Angela.
O animal que eu quero não mora comigo, não almoça mais comigo, não brinca mais, não me telefona, não me advinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendo dengo, nossos signos parecem não mais combinar. O animal que quero, pensa demais e por isso não passeia mais comigo. E o pior: Não me lambe mais.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

As coisas não dão certo

Essas palavras que li no blog do Marcelo Coelho me pegaram. Eu q tô sempre procurando a regra, a lógica, e sempre insatisfeita com a minha imperfeição, só queria ser simples e leve e me senti assim ao ler isso.

"As coisas não dão certo/nunca deram certo/não foram feitas para dar certo// nós é que temos a ambição/do alinhamento e da simetria// e até inventamos deuses perfeitos/ construídos à imagem e semelhança/ do que sonhamos// as coisas não dão certo/nós é que cerzimos o pano/ obturamos o dente/ remendamos a fronteira no mapa// e inauguramos/ na estátua de chumbo/um simulacro de ave// queremos crer/ que as coisas dão certo/ as coisas agora estão dando certo/ e --se deus quiser--/ sempre darão"

Carlos Machado