terça-feira, 23 de setembro de 2008

Cabresto

A atriz gravidíssima Lavinia Vlazak aparece todas as noites na TV explicando para os eleitores não venderem seus votos. Nunca conheci alguém que recebeu ou que teve ofertado R$ 100 (ou um par de sapato ou um saco de farinha) para votar em algum candidato, seja do executivo ou legislativo. É que o tal voto de cabresto não funciona exatamente assim. Há formas mais sútis, sedutoras e certeiras para comprar votos dos eleitores.

Uma delas e a mais eficiente é o chamado "trem da alegria" e funciona para a manutenção de poder. O governo em vigor contrata um bom número de funcionários sem concursos públicos ou os legisladores contratam para seus gabinetes inchados. Eles não tem a estabilidade de um estatutário, e sua função por ser criada como um "cargo de confiança" está ligada ao mandato daquele político. Pronto, está ganho os votos dos funcionários, seus amigos e familiares. Se o contratado à perigo for alguém popular em sua comunidade, por exemplo ligado a uma escola de samba ou entidade religiosa, ganha votos de forma exponencial. Já ouvi esses contratados dizerem que votariam por gratidão por quem lhe deu emprego (emprego é trabalho remunerado, logo, não é um favor). Mas é mais do que gratidão, os contratados votam por medo, quase uma ameaça, uma espécie de coronelismo.

O pior que conheço algumas pessoas (bem instruídas) que vendem seu voto dessa forma. O medo é mais forte que qualquer racional ou ideologia.

OBS: é claro que não se pode julgar quem vende seu voto por medo. Afinal, o pão de cada dia é que está em risco. É bem provavel que eu também venderia numa condição dessa.

My Blueberry nights

"There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... People make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... No one wants it"
(Jeremy - no filme My Blueberry Nights ou "Um beijo roubado")

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pensamentos soltos (e clichés) sobre as eleições municipais

1) Esperava mais da Soninha. Achei que ela traria para o debate idéias mais oxigenadas e propostas mais inovadoras, mesmo que dificéis de serem aplicadas.

2) Alckmin é o personagem ridículo dessas eleições (mesmo que eu não descarte a chance dele dar uma arrancada e ganhar). Se rebelar contra parte do partido a troco de uma prefeitura, sendo que podia tentar coisa melhor em 2010 como o governo ou um ministério caso o Serra suba o Planato.

Se não chegar nem ao segundo turno vai ficar vexatório para quem já foi governador. Se chegar lá, vai ganhar a birra do DEM e prejudicar o apoio poderoso para 2010. Aliás, a perda do marketeiro no meio da campanha já mostra que ele sozinho não apita nada, precisa de partido e o partido precisa de um outro partido.

Daí fica com um discurso bobo e perdido sem saber se é oposição ou situação.

3) Bom o marketeiro do Kassab, hein? No programa, o prefeito parece simpático e até fala bem no debate, superando a língua presa. Fora que está com um discurso cheio de apelo emocional. Quando assisto o programa ou o vejo no debate até titubeio por ele. (depois a razão retorna)

4) Dificil ser marketeiro desses 3 candidatos tão “carismaticos”, né? Coitados, um pior que o outro no quesito simpatia - um picolé de chuchu, uma perua arrogante e irritadinha e um mal-humorado de lingua plesa.

5) Ah, e a sigla DEM pegou né? Ninguém mais lembra que era o PFL – aquele do ACM e coroneis.

6) Eu não ligava tanto para o Cidade Limpa até chegar as eleições. As últimas eram um nojo.

7) Alguém sabe por que as eleições não são concomitantes? Assim, ninguém precisaria perguntar se os candidatos irão largar a prefeitura para serem governadores, como aconteceu nas últimas eleições. Se é tarde para consertar isso, poderia ao menos proibir essa pulada de galho.

8) 45% de aprovação não é aprovação, né? É a desaprovação de 55% da população. Logo, o governo atual está reprovado pela maioria.

9) Aqueles doentinhos e médicos dos postos de saúde que choram agradecendo os candidatos são pagos, né? Isso não devia ser considerado compra de voto também?

10) Não conheço um candidato a vereador.

11) Odeio pensar que tenho vivido como uma “dondoca” a ponto de não conseguir escolher o candidato. Afinal, uso muito pouco os serviços públicos, nunca vi um CEU ou AMA, e faz tempo que não ando pela periferia.

12) Acho bem interessante eleições municipais porque os mais pobres tornam-se os mais engajados, conscientes e com melhores justificativas para seus votos. Eu estou inapta a votar como disse acima.

domingo, 7 de setembro de 2008

A vida como ela é II


Para mim, o personagem mais interessante do filme "Linha de Passe"é Reginaldo. É esperto e engraçado, mas briguento e cheio de raiva por ser o "neguinho", caçula, e não conhecer o pai. Diferente dos outros personagens, ele não nasceu de estatísticas, mas de uma notícia de jornal.

Um garoto de 14 anos vivia procurando o pai nos coletivos, até que aprendeu a dirigir. Um dia ele entrou na garagem e saiu com o ônibus por três horas, até ser preso. Passou 24 horas na Febem, e depois que foi solto, roubou mais 30 ônibus até fazer 18 anos. Hoje ele é mecânico.

Linha de Passe - A vida como ela é

Linha de Passe, novo filme do Walter Salles, fala da periferia de São Paulo (Cidade Líder-ZL). A história não trata de tragédias ou bang-bang, não tornam os pobres heróis, nem vítimas, nem bandidos. Não tem romantismo, nem acidez, não faz crítica social ou apela para emoções. Retrata o drama inerte que é o cotidiano de gente que tem poucas opções. Haja maestria para se falar do que é estático. Haja maestria para se falar do hoje e da maioria, aquela que não mata, nem morre, mas que “se salva”.

É um filme de bons personagens e ótimas interpretações para gente se ver na tela. A verossimilhança fica ainda melhor por ser interpretada por atores desconhecidos. Cleuza (intepretada pela atriz premiada em Cannes – Sandra Corveloni) é empregada doméstica, corintiana, grávida e mãe de quatro filhos que cria sozinha. O mais velho, Denis, é um motoboy (como não podia deixar de ser ao falar de SP), pouco ajuizado. Dinho é evangélico e luta para a não sair da linha. Dario (lembra do Josué de Central do Brasil? É ele) acaba de completar 18 anos e parece o fim da esperança para quem sonha em ser jogador de futebol. O caçula, Reginaldo, é negro, esperto e sonha em conhecer o pai: um motorista de ônibus. Todos, apresentados com equilíbrio, lutam para se salvar a sua maneira.

Os personagens dão vida às estatísticas – mãe solteira, evangélicos, motoboys e jovens que querem ser jogadores de futebol – mas não caem em clichês. Cleusa poderia cair fácil no heroísmo, mas é uma guerreira cheia de defeitos. Apesar de carinhosa e batalhadora, dá surra no filho, é por vezes desatenta, bebe e fuma, fala coisas pesadas como “Deus vai me dar uma menina bem boazinha pra me salvar de vocês”, e é questionada pelos meninos por não ter lhes dado pai.

A vida dessa família (solidária e com pequenos confrontos) é dura e cinza como São Paulo. Feliz escolha pela cidade. As favelas do Rio já foram apresentadas ao mundo em filmes severos de bang bang – bastante preto/branco. Salles decidiu retratar a periferia que conheço com meu olhar estrangeiro: a que joga bola na rua, que toma Tubaína, que passa muitas horas no ônibus, que gasta o domingo na bodega ou igreja, que vive em um jogo coletivo.

O filme é sútil e prima pelos detalhes ao invés de apoiar-se em narrações (como Cidade de Deus e Tropa de Elite) ou excesso de diálogos. Gosto muito da cena em que Cleusa vê a nova empregada usando o rodinho de limpar vidros que ela não tinha. Pra que dizer que está revoltada, que está sendo injustiçada? Está tudo ali dito diante de nossos olhos.

Nos minutos finais, o filme vai crescendo e ganhando tensão com cenas memoráveis, que não vale contar. E não tem um desfecho, afinal, o cotidiano é contínuo. E já que é ficção mesmo, posso imaginar o golaço de Darío, ou uma defesa espetacular do goleiro.