sexta-feira, 24 de março de 2006

Esperando o homem da casa

Como todos os domingos, meu tio chega em casa com pão italiano debaixo do braço, e é o cheiro de pão fresquinho pontual que faz o domingo ser domingo para mim, minha irmã e minha mãe. As três mulheres se reúnem em volta da mesa da cozinha esperando o homem da casa chegar.
No próximo domingo, o almoço não será na cozinha, mas na sala de jantar, lugar nobre da casa, porque a expectativa está sendo outra. Depois de cinco anos fora de casa, papai voltará a esperar o macarrão à bolonhesa de mamãe e mamãe a esperá-lo.
Finalmente, não sobrará massa para o dia seguinte. Mamãe finge indiferença, mas já procurou na gaveta a receita do manjar, sobremesa favorita de papai.
Acho que ele vai chegar em casa assim como se foi: cabeça baixa, acuado, ombros encolhidos, com cara de menino que quebrou a vidraça e novamente desempregado.
Meus pais não parecem retomar casamento tão cedo, mas estão recuperando o carinho e a amizade e fico feliz por isso. A época da separação foi dolorosa para mamãe, e só para ela. Aos 16 anos, eu tinha me acostumado com a idéia de ter pais divorciados, até porque oito em cada dez colegas meus viviam essa situação.
Meu pai saiu de casa, pois já não fazia parte dela. Desempregado e com outra mulher, mamãe mantinha a casa financeiramente e com todas as tarefas de mãe e dona de casa perfeita. Isso durante anos sem queixas por parte dela. Afinal, essa história parecia comum. Vizinhas, mães de amigas minhas e até minha madrinha que casou com um engenheiro da USP eram mantenedoras de seus filhos, casa e maridos. Eram os homens da casa.
O meu e tantos outros pais foram perdendo seus empregos nos anos 90, ganharam idade e barriga. Enquanto isso, suas esposas ou estudaram e se atualizaram profissionalmente, ou se motivaram a sair de casa, ou ainda, souberam se sujeitar a salários menores ou funções menos importantes, como no caso de mamãe.
As leis trabalhistas ficaram flexíveis. Mamãe teve de registrar firma e tornar-se autônoma para manter seu emprego. Papai, nesses cinco anos, tentou carreto, táxi e uma sociedade em um videoclube. Faliu.
No próximo domingo, é certo que meu tio, como típico cunhado, aproveitará para alfinetar meu pai. Contará como sua recente empresa de consultoria (que consiste nele em um apertado escritório) está prosperando. Isso porque ele espertamente registrou o escritório em Carapicuíba, onde o ISS é menor do que na Avenida Paulista, local em que realmente está localizado.
Isso vai esnobar meu pai, que virá de trem para o almoço, pois está morando em Carapicuíba, com a possibilidade de pedir baixinho para mim a passagem de volta. Ainda assim, será bom esperar o macarrão com meu pai novamente, segurar firme sua mão e infelizmente, compartilhar o caderno de empregos do jornal de domingo.

Um comentário:

Francini Barbosa disse...

Mi, linda, você está escrevendo cada vez melhor. Beijão!