terça-feira, 24 de julho de 2007

Rasgando o diploma

Pedi o diploma jornalista na faculdade e não fui buscar. E nesses dias pós-acidente da TAM deu vontade de nunca mais pegá-lo.


- Primeiro, porque apesar de saber que o Marco Aurélio Garcia e toda sua corja são repulsivos, é importante deixar claro, que se você está na sua sala e faz um gesto obceno, você não é um criminoso. Agora, se você é cinegrafista e utiliza um super zoom para gravar um assessor da presidência, ou um operário, dentro de um lugar privado, você está cometendo um crime. E se você é editor de um telejornal publicou essa imagem ilicita, também é crimoso.


Jornalistas criminosos adoram justificar seus atos em nome do direito de informação do público, do interesse do cidadão. Oras, mas como justificar um crime contra um ato vexatório, porém não criminoso?


- Em segundo lugar: Eu até concordo que o relato de uma tragédia, ou uma guerra, não pode ser limitada a números. Afinal, quem morre é um garoto que gostava de macarronada, uma senhora aposentada que fazia doces para seus netos, etc. Agora, se para fazer esse relato for preciso adentrar velórios e o IML para colher imagens de desespero de familiares que acabam de receber a notícia de uma morte trágica, eu prefiro rasgar o diploma.


- Eu sinto vontade de rasgar o diploma quando vejo diariamente ao longo de 10 meses a cobertura do caos aéreo. Um tema sem dúvida importante, afinal impacta a economia, mostra o grande relapso em investimentos em infra-estrutura, é desrespeitoso com cidadãos e consumidores e ainda por cima pode ter sido uma das causas da queda de um ou dois aviões de grande porte.


O que me revolta é a disparidade entre essa cobertura e as raras notícias sobre as mortes por neglicencia e falta de investimento em hospitais públicos. Das duas uma, ou já estamos tão acostumado com o caos da saúde pública a ponto disso não virar mais notícia, ou damos mais atenção ao cidadão que além de impostos, também paga passagem aérea e convênios médicos?


Obs: Importante lembrar que orçamento público é um cobertor. Se passarmos a investir mais em aeroportos, teremos de deixar de investir em algo. Eu espero que seja a campanha para a Copa que fique sem verba, e não a saúde pública.


- Eu quero rasgar meu diploma quando a imprensa desrespeita familiares de vítimas (em nome do respeito pelas vítimas) e mostra imagens de uma funcionária da TAM Express se jogando do parapeito do prédio. Uma imagem de filme de terror, que não agrega nada a conclusão do desastre. A última coisa que eu gostaria de ver na TV era a minha filha, ou mãe, ou irmã, morrendo.


- Eu vou rasgar meu diploma, porque as mortes do Complexo do Alemão e as chacinas da Zona Norte (tão próxima da comovente de João Helio) foram noticiadas com frieza e renderam apenas notas. Eu também quero saber se os garotos que morrem nas periferias gostavam de macarronada, queriam ser bombeiros, ou tinham namoradas apaixonadas. Mas nesse caso ninguém foi ao IML ou velório. Nem vi o rosto das mães deles.


O que a imprensa tem feito nos últimos dias e meses é um sensacionalismo barato, criminoso, covarde e lobista. Embuida em romantismo juvenil, escolhi a profissão errada.

9 comentários:

Francini Barbosa disse...

plac, plac, plac...

Não tenho nem palavras no momento pra comentar, estou emocionada. Você é uma das poucas que consegue ser lúcida e humana ao mesmo tempo.

Ah, e quanto foi gasto na bosta do Pan mesmo???

bjosbjos

Fábio disse...

Quanto à cobertura da imprensa sobre o acidente, concordo em parte. Tem muita porcaria, como sempre, mas tem coisa boa nesse meio aí também.

E tão vergonhoso quanto esse tipo de jornalismo muito bem criticado por você, é termos um governo que investe 4 bilhões de reais no Pan e reduz os investimentos em segurança aérea de 823 milhões em 2002 para 458 milhões (média/ano) desde 2003.

Ah, e sobre o gesto do Marco Aurélio Garcia, eu estou esperando a demissão dele até agora. E acho que vou ficar esperando sentado...

Beijo!

Diego disse...

Nossa, Milena. Brilhante! Não é nenhuma questão de concordar com tudo ou não, seu texto foi simplismente brilhante!

Parabéns!

Nádia disse...

Fantástico. Boa parte do que você escreveu eu tinha falado com algumas pessoas nas últimas semanas, hehhehe...

Falando do caso do João Hélio: quando aconteceu, eu lembrei muito de uma prostituta, grávida, em Ribeirão Preto, que tinha sido propositadamente arrastada por um carro por quase 30 quilômetros.
E não vi nada perto dessa comoção...

Enfim, às vezes você deve ter vergonha, não querer seu diploma e tal. Mas eu sei também que essa sua indignação serve como motor para ser diferente.

E saber isso é, no mínimo, reconfortante.

Lena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Emilia disse...

Você trouxe à tela muito do que eue stava pensando todos esses dias após o acidente e ao ver pela TV (logo após o ocorrido) o Datena fazendo comparações absurdas com o WTT e comentários do gênero "os corpos devem estar dilacerados".Mas acho que depois de ler o teu texto teu diploma vale ainda mais:acredito que você nem saiba quem eu sou e ainda assim leio teu blog não só por interessar-me por blogs mas pelo conteúdo.É de jornalistas assim que precisamos.

Fábio disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Andressa disse...

Milenita,
muuuito bom esse post. Me senti na obrigação de parabenizá-la.
Vc ganhou mais uma leitora :o)
Bjos

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny