terça-feira, 11 de dezembro de 2007

À margem do concreto


"Que tristeza que nóis sentia
Cada taubua que caía
Doía no coração" - Adorinan Barbosa


As principais chamadas dos jornais online de hoje acompanhavam o trânsito ainda mais caótico da cidade de São Paulo. A Marginal Pinheiros teve o mais alto índice de lentidão do ano, com 23km hoje pela manhã. Quatro parágrafos depois, no pé da matéria, a folha online explicava com apenas uma frase o motivo do caos.

"A reintegração de posse na Favela Real Parque, no Morumbi, começou durante a madrugada e pretende retirar de um terreno 1.250 barracos".

Eu e você, certamente, vamos chegar mais tarde em casa. Mas à margem do concreto do skyline da Marginal e à margem da notícia, 1.250 famílias não podem voltar pra casa, pois como disse o estadão.com "os barracos seriam desmontados". Desmontados? Mas, não são feitos de Lego, né. Eles vão ser destruidos, demolidos tabua por tabua, sem chance de montar de novo. E quando é a casa da gente, o nosso canto, o nosso lar, feito com o nosso suor, dá vontade de gritar.

Eu queria que além do trânsito a imprensa contasse onde os manifestantes vão dormir hoje, se há crianças, idosos, grávidas, entre os moradores, que merda vão construir no lugar desses barracos. Será mais um shopping, um condomínio? Na época do lançamento, o endereço vai voltar a ser notícia, bem provavel na Veja São Paulo, mas "Se o sinhö não tá lembrado/ Dá licença de contá/Que aqui onde agora está/Este ardifício arto/Era uma casa véia (...)Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida".

4 comentários:

Fábio disse...

Grande Adoniran... E belo post. Triste, duramente real e belo.

Diego disse...

Comovente!

Francini Barbosa disse...

Ah se todos os jornalistas (e editores) fossem iguais a você...

Cris disse...

É de lascar ter que ler que a desocupação "atrapalhou o trânsito"...Nossa, jura? Isso foi mesmo o mais importante? E as famílias, para onde foram? Por que estavam morando lá? O que vai acontecer com elas? Bom, e a polícia? É "procedimento" usar gás pimenta contra mulheres grávidas e crianças? Cadê a sensibilidade, meu povo?!