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terça-feira, 24 de julho de 2007

Narrativas de Conflitos

“Antes de ver uma guerra de perto, você acha que se trata de vitória e fracasso. Depois, você descobre que se trata somente do fracasso do espírito humano".

Robert Fisk, correspondente no Líbano do jornal britânico “The Indepent”, durante a mesa “Narrativas de Conflitos” na Flip 2007.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Eu e o gato



- Gato, qual caminho devo seguir?

- Onde quer chegar menina?

- Não sei

- Então qualquer caminho te leva a qualquer lugar.

Em cascata

A mesa "Violência" da Flip teve como debatedores além de Guillermo Arriaga (Mexico), Denis Lehane (EUA) escritor da obra que inspirou o filme "Sobre Meninos e Lobos". Nos filmes, 21 gramas e Babel (roteiros de Arriaga) e Sobre Meninos e Lobos, há um emaranhado de histórias paralelas que se cruzam por um fato comum que vai cascateando e afetando a vida de outras pessoas. Essa é a visão comum sobre violencia que os dois autores têm.


Em um filme de ação, um soco ou um tiro acabam em uma cena. Para Arriaga e Lehane, não. Todo ação de violencia muda a vida de alguém, essa pessoa nunca mais será a mesma. E em seus filmes, essa história continua.


Os personagens de Tim Robins e Sean Pen tiveram suas vidas transformadas ao viver a violencia na infancia em "Sobre meninos e lobos". Em Babel, um tiro de rifle em Marrocos afeta a vida de uma família americana e sua empregada mexicana.


O que eles escreve na ficção, pôde ser visto de forma real na mesa entitulada "Sobre meninos e lobos" com Paulo Lins (Cidade de Deus) e Ishmael Beah (Serra Leoa - Muito longe de casa). Ambos são sobreviventes de guerras civis, declaradas ou não. E sabem exatamente como o convivio com a violencia afetou suas vidas definitivamente.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Histórias de um caçador

Desde os 12 anos, Guillermo Arriaga caça. Na primeira vez que ele e seus amigos pegaram em um rifle foram testar o alcance em um carro. Por pouco não fizeram o arriscado teste. Desse episódio surgiu o enredo de Babel.


Arriaga caça até hoje. Ele já foi vítima de violência, foi espancado por um desconhecido com um taco de beisebol e viu muitos outros casos com seus vizinhos e conhecidos. Ele também vive a violência ao caçar, fica próximo da morte, e tem a vida de um ser em seu domínio. A caça envolve poder, sangue e proximidade com a morte. Sem dúvida, um hobbie condenável, até mesmo para uma hipocrita carnivora como eu, que prefiro pensar que existem pés de sanduíches de mortadela.


Ele sabe que todos os condenam, mas arrumou uma "explicação". Contou na mesa "Violência", durante a Flip 2007, que uma tribo indígena acredita que o homem possui duas almas, a alma leve e a alma pesada. Quando sonhamos, é a alma leve que saiu por aí e depois voltou. E a morte acontece quando a alma pesada saí de nosso corpo. Antes de morrermos, a alma leve tem de ensinar a alma pesada a sair do corpo. E a leva até uma árvore e depois até a uma mulher menstruada, porque ela significa a vida que poderia ter sido e não foi, a beira entre a vida e a morte.


Arriaga conclui que o escritor é justamente a alma leve. Conhece a beira da morte e retorna para contar como é. O autor mexicano tem o sangue nas mãos e nos olhos quando vai a caça, e talvez essa convivência com a beira da morte o faça ser um dos mais brilhantes escritores sobre Violência, seja em seus filmes ou em seus livros, como "O doce aroma de morte" que leu trechos no evento. Talvez só quem conviva com a morte tão cotidianamente pudesse escrever sobre ela.


Obs: O roteirista não atendeu aos pedidos e não contou o que a japonesa escreveu no bilhete para o policial.

Escritor para cinema


Guillermo Arriaga (México) é escritor, mas ficou famoso internacionalmente por seus roteiros (Três Enterros, Amores Brutos, 21 gramas e Babel). Ele defende que não é roteirista, mas escritor para cinema, pois não faz adaptações, só escreve histórias originais, baseadas em fatos que viveu.

Ele reclama da injustiça. Ora se uma peça é de seu autor, se um livro é de seu autor, porque um filme, que precisa substancialmente de uma boa história, é um trabalho atribuido ao diretor. Concordo com ele, injusto.

Reality shows, fofocas e literatura

No Roda Viva de ontem, edição especial Flip 2007, Paulo Markun pergunta a Amos Oz se os reality shows prejudicam a literatura, uma vez que as pessoas vêem tudo e perdem a capacidade de imaginar.

Amos Oz é um reconhecido pacifista e diferente de grande parte dos "cults" não crucificou os realities shows, ou fofocas de celebridades. Pelo contrário. Disse que programas como estes são motivados pela curiosidade nata dos seres humanos. E para ele, a curiosidade é uma virtude, que salva o homem da intolerancia, que ele tanto abomina. O escritor acredita que a curiosidade é o primeiro passo para se conhecer o outro, aceita-lo e respeita-lo.

O autor ainda diz que a fofoca é prima da literatura, pois ambas lidam com a curiosidade e com o ato de se contar boas histórias. A única diferença entre elas seria a profundidade das discussões. Enquanto a fofoca atinge apenas o supercifial, a literatura se aprofunda em seus personagens, histórias e análises, por isso essas primas nunca se encontram.

Viu só, folhear a Caras e espiar o Big Brother pode ser um ato nobre. Será que tem Big Brother Israel?

Cantanda

Amos Oz, o escritor israelense que participou da Flip 2007, compara o processo de criação de um livro a velha e boa cantanda. Quando o escritor se depara com a folha em branco, em que tem que começar a escrever, sente a mesma insegurança como se tivesse que conquistar uma moça bonita em um café ou bar. É a conquista do leitor(a).

No ato, tem de falar algo inteligente, para alguém que não conhece nada sobre você, e que talvez nem queira conhecer. A primeira frase tem de ser interessante o suficiente para que a moça bonita do café ou a leitora tenha vontade de continuar a ouvi-lo. Se fracassar, a bela sairá andando, sem nem olhar para ele, ou largará o seu livro na primeira página.

As escritoras devem perder muito conhecimento por ficar em uma posição confortável de não ter que elaborar boas cantandas aos moços bonitos dos cafés. Acho que vou passar a canta-los.

Nelson Rodrigues

O homenageado da Flip 2007 foi Nelson Rodrigues, que muito mais do um tarado, foi o maior dramaturgo brasileiro, talvez do muuundo se considerarmos somente a sua época. Como só pude ir para Paraty na sexta-feira, perdi a sessão de abertura e homenagem a ele e uma das mesas que aconteceria no sábado foi desmarcada.
Ou seja uma decepção para mim, já que não vi nada sobre o Nelsão. Nem peças pelas ruas de pedras, naaada. Teve uma leitura de Beijo no Asfalto no sábado a noite que estava chatíssima, ainda mais naquele frio.

Mas além de suas peças brilhantes, Nelsão foi um jornalista dos bons, daqueles bem mentirosos. Dizia que o defeito dos jornalistas é que mentem cada vez menos. E como esta, pouca gente tem tantas frases memóraveis como Nelsão. Robei essa daqui do Blog do Tas que circulou bem por Paraty com seu chapeu de palha.

O rico e o pobre são duas pessoas.
O soldado protege os dois.
O operário trabalha pelos três.
O cidadão paga pelos quatro.
O vagabundo come pelos cinco.
O advogado rouba os seis.
O juiz condena os sete.
O médico mata os oito.
O coveiro enterra os nove.
O diabo leva os dez.
E a mulher engana os onze.

Parece que a sociedade brasileira continua igualzinha, cheia de Monicas Velosos.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Frases da Flip para colocar no Orkut

"O bobo tem tempo para ver, ouvir e olhar o mundo. Vê coisas que os espertos não vêem... E aqui somos todos bobos” - Paulo José diz a citação de Clarice Lispector na Mesa dos dramaturgos na Flip

"A dor é inevitável. Sofrer é opção" - Guillermo Arriaga - escritor e roteirista.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Mais sobre a mesa "Sobre meninos e Lobos"


Ishmael Beah, 26, (escritor de Muito Longe de Casa, Serra Leoa) contou que seu país não consta na lista dos aeroportos do Brasil e da Inglaterra. Provavelmente, ele seja o primeiro Serra Leonino (será que é assim?) a vir ao Brasil. Se a gente nem conhece Serra Leoa, quem pensa em Serra Leoa?

O autor diz que só depois de 8 anos de guerra civil, Serra Leoa foi percebida pelos demais países. Até então, ninguém usava a palavra genocidio, ou seria preciso agir. Não agiram. Hoje, é muito mais dificil terminar com a guerra, pois já nem se sabe mais porque se começou e praticamente não há mais diferenças entre o exercito e os rebeldes.

Muitas vidas poderiam ter sido preservadas, muitas infâncias também. Depois de 8 anos, há toda uma geração criada pelas drogas e violência, totalmente sem perspectiva. Para garotos como Ismael, as armas e o exercito substituiram a familia dizimada e a presença da morte é cotidiana. Ele conta que se sente feliz quando dorme, porque não podia fazer isso durante a guerra.

Obs: O livro "Muito longe de casa" desapareceu da livraria da Vila, montada para Flip, logo após seu debate.

De quem é a culpa?

Paulo Lins falou "Eles não têm culpa", referindo-se ao exercito de crianças do tráfico. "E de quem é a culpa?" - pergunta o jornalista carioca Fernando Molica, que mediou a mesa "Sobre meninos e lobos".

Paulo responde que é a hipocrisia que permite que darmos as costas para o que está tão visivel. Quando outros países convidam Paulo para ir a encontros, congressos, debates, ficam impressionados como o brasileiro vive normalmente com essa realidade. Como pode o carioca passar todos os dias pelo Vidigal e achar aquilo tão natural? (não diferente em SP)

Paulo diz que todos se comoveram quando João Helio foi brutalmente arrastado por um carro. Afinal, se aconteceu com ele, pode acontecer comigo, com você, com qualquer um. E isso é uma grande tragédia.

Mas na mesma semana, uma mulher grávida foi a 3 hospitais públicos no Rio procurar atendimento. Não conseguiu e morreu. Isso também é uma grande tragédia, mas não comoveu, não foi debatido, não deu capa de revista, porque eu e você temos convenio médico. Então, não pode acontecer com a gente.

Depois de casos como o de João Helio, muitas Ongs fazem trabalhos para as crianças que estão na favela, para tentar minimizar a quantidade de incidentes, dando alguma perspectivas a esses jovens. E Paulo pergunta: e quem pensa nos adultos e velhos que estão na favela? Quem pensa na mulher grávida que morre por falta de atendimento médico?

De onde vem? II

A mesa entitulada "Sobre meninos e lobos", contou com o debate entre Paulo Lins e Ismael Beah, escritor de Serra Leoa, que aos 12 anos entrou para o exercito e foi resgatado pela Unicef desse terrível genocidio. Dois sobreviventes que contam suas histórias nos livros Cidade de Deus e Muito longe de casa.

Brasil e Serra Leoa vivem guerras civis. Uma declarada, outra não. Em ambas, meninos cada vez mais jovens perdem a conta de quantos mataram (incluindo o próprio Ismael). A longevividade desses meninos é cada vez menor. E a outra semelhança é que esses países não produzem armas. Então, de onde vem?

De Serra Leoa, o dinheiro para se conseguir as armas vem dos diamantes. No Brasil, vem das drogas. Sabe aquele anel exposto no shopping, sabe aquele fuminho que seus amigos puxam de vez em quando? Não são tão inocentes assim.

De onde vem?

Me irrita profundamente quando consideram um ato de coragem a ação da polícia do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão, para combate ao tráfico de drogas. Eu sempre me posicionei contra a legalização de drogas. Mas, se é proibido a policia tem que coibir. E se a policia coibe, mata mais com seus tiros de fuzis do que qualquer outra droga traficada nos morros (que matam os dependentes e destroem com tudo a sua volta).

Na Flip, Paulo Lins (Cidade de Deus)lembrou que, com ou sem a ação da polícia, a guerra nas favelas cariocas é uma constante. Comando Vermelho e Terceiro Comando estão em guerra há 25 anos no Vigário Geral, disputando o comando do trafico no Rio.

E como em um conto tragicomico, a guerra começou em uma partida de futebol entre os grupos. O jogador se preparava para bater o penalti. Atiram no goleiro. Ele cai. A bola entra. É gol.

Algo deve ser feito, não há como negar. Mas as ações da policia, só parecem ampliar essa guerra, em que morre inocentes, trabalhadores, famílias inteiras, além de bandidos e policiais.

Uma ação corajosa seria coibir a entrada das armas e drogas nas favelas. E não a saída delas. O que Paulo Lins perguntou foi de onde vem? Por que a Polícia Federal, tão admirada ultimamente, não tem operações efetivas a esse respeito?

O Brasil não produz armas, tampouco as drogas pesadas. Essa seria a pergunta e ação bem mais inteligente, efetiva, e justa, do que atingir o caminho inverso, da droga saindo do morro.

Flip 2007 - eu fui!

O melhor clima do muuundo! - mais de 30ºC em pleno julho, e friozinho a noite.
Os convidados de 4, das 5 mesas que assisti, são os melhores do muuundo! - o melhor roteirista (Guillermo Arriaga), os melhores jornalistas (Robert Fisk e Lawrence Wright), os melhores escritores (Paulo Lins, Ismael Beah, Mia Couto, Antonio Torres, Denis Lehane, entre outros que não pude assistir).
A cidade mais linda do muuundo!
A melhor praia do muuundo! (Ilha do Pelado)
O maior pastel do muuuundo! (30 cm, Bença Deus)
O céu mais lindo do muuuundo! - a Lua refletindo no canal e o céu estrelado.
A cidade mais cheia do muundo! (20 mil pessoas, em uma praça)
A praça mais bonita do muuundo! - cheia de crianças, com livros pendurados nas árvores, oficinas de pipas, e com a presença de Alice e seus amigos do País da Maravilha.
A maior concentração de bichos grilos do muuundo!
A maior concentração de chapéus do muundo!
Os restaurantes mais demorados do muuundo! (de 1 a 2 horas para trazerem o prato da casa, e 30 m para trazer uma cerveja).
O melhor sorvete do muuundo!
O quarto mais mofo do muuundo!
J.M. Coetzee é o autor mais arrogante do muuundo! (não quis dividir a mesa com ninguém, nem responder as perguntas do plateia)
Guillermo Arriaga é o homem mais gostoso do muuundo!
A melhor companhia do muuuundo! - Toco, Marmota e Carol - divertissímas!

Nos próximos posts conto mais sobre as mesas que assisti. E coloco fotos da cidade.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

É pra lá que eu vou



Um lugar encantado, em que habitam poetas, roteiristas, contadores de histórias, crianças, leitores. Todos caminham sem pressa por ruas de pedras, passando por casarões coloniais e pelo mar.

Volto na terça-feira, contando tudo sobre a Flip, Paraty, e a primeira viagem das cabeçudas.