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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Laerte - sem barreiras


No post abaixo eu sugeri a leitura da entrevista do cartunista Laerte para revista Bravo. Eu tive o imenso prazer de passar uma tarde entrevistando ele anos atrás. Caí de amores por quem eu já admirava. Laerte é genial (afinal é o homem que criou Deus), tem histórias incríveis, é bem-humorado, humilde e extremamente simpático. Mas além de tudo, Laerte é profundo e corajoso.

Nos últimos anos, suas tirinhas mudaram de tom, assim como sua vida, após o fim de seu terceiro casamento, a morte acidental e precoce de um de seus filhos, e mais recentemente a tragédia de seu amigo, o cartunista Glauco. Considerado como nonsense e obscuro, perdeu contratos com os dois jornais com os quais colaborava. E entrou em uma crise criativa. Em meio a essa crise descobriu o crossdressing – grupo de homens que se vestem de mulher parcial ou totalmente. Ele passou a usar brincos, pintar unhas de vermelho, usar maquiagem, cortar cabelo chanel. As vezes usa salto alto, vestidos e até lingerie rendada. À Bravo disse:

O crossdressing, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites. É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres?”

É lógico que ao ver suas fotos, a primeira coisa que vem a cabeça é Bizarro. Sua namorada também achou a princípio, mas hoje já o ajuda a compor seu novo guarda-roupa. Sua identidade de gênero nada tem a ver com sua orientação sexual. Laerte está rompendo abismos de gênero ao se travestir. Está sabendo o quão feliz nós, mulheres, ficamos ao descobrir aquela cor de esmalte ou de batom, e nossa loucura por sapatos. E está expressando através de seu comportamento aquilo que Simone de Beavoir já afirmava “ninguém nasce mulher. aprende a ser”.

Assim como Laerte quero muito que um dia eu tenha menos obrigação de me portar assim ou assado por ser mulher, ou que um homem deva ser machão para mostrar-se homem. Eu espero que doçura, delicadeza e prazeres – sejam eles quais forem – sejam compartilhados por todos os gêneros e que a gente possa apenas ser o que quiser - sem limites, sem barreiras, sem negociar com nossos desejos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

É proibido ficar triste

A felicidade tornou-se uma obrigação. Claro que Vinícius de Moraes tem razão e é muito melhor ser alegre do que ser triste. Mas ele também sabia que para fazer um samba com beleza era preciso um bocado de tristeza. Para todo mundo, a vida tem um pouco de alegria, e um pouco de tristeza. É impossível eliminar conflitos, dores de cotovelos, doenças e mortes. Em algum momento, alguma dessas dores irá te pegar e você terá de encarar.

O que me assusta é que a felicidade é tão vendida na capa da Caras, em propagandas de margarinas, época de Natal, em livros de auto-ajuda, que não nos permitimos estar momentaneamente tristes. É quase uma prisão da felicidade, em que a vida tem que ser uma festa. Passamos a vida todo como se fossemos aquele anfitrião de uma festa fiasco em que o Amaury Jr está presente. Não há clima, descontração, alegria, mas as câmeras estão ligadas e então, o anfitrião finge tristemente animação e sucesso sem enganar nenhum telespectador. Tudo porque há uma pressão para que a festa seja um carnaval de alegria que torna aquele anfitrião, que até poderia ter algum motivo para comemorar, ficar triste. 

Não adianta fugir. A tristeza chega pra qualquer um e quando ela bater na porta essa obrigação de sermos felizes faz de nós ainda mais despreparados para lidar com ela. Viramos excessivamente ansiosos e não conseguimos esperar que ela vá embora. Daí, são duas dores: a dor de fato, e a dor por sentir dor. Então diagnosticamos por nós mesmo: depressão. Corremos para psicólogos, psiquiatras, ou terapias holísticas na esperança que exista uma solução simples e imediata como uma pilula, gotas de floral ou minutos de sabedoria que façam aquela tristeza desaparecer como em passe de mágica.

Mas a vida não é mágica, tampouco fórmulas. Tristeza vai, tristeza vem, e a gente tem que aprender a conviver com ela, quem sabe até aprender a partir dela. Não adianta joga-la pra debaixo do tapete, nem lutar boxe ou correr 15 km diários só pra que as dores musculares sobreponham as dores da alma. Admitir tristeza e feridas é corajoso e deve ajudar a cicatriza-las – esse é o principio do divã. Mas a obrigação de ficar bem na foto, pra todos, o tempo todo, só deve estar nos tornando dependente de antidepressivos, rasos e cínicos. Deixa a mascara cair. Se a gente soubesse que nosso colega de baia também tem o coração partido, talvez achássemos que o nosso é só mais um coração partido e que se essa dor passou ali e logo passa aqui também. Porque como diria minha sábia mãe, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.
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E por essas que admiro ainda mais o quadrinista Laerte. Ele é o homem que criou Deus! E também Hugo, Piratas do Tietê, entre outros. Suas dores passaram a fazer parte de seus quadrinhos, que perderam o humor e tornaram-se mais filosóficas, melancólicas e até obscuras nesses últimos anos. Laerte deu essa corajosa e sincera entrevista a Bravo, que vale muito a pena ser lida.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tic tac

Amigos do colégio em um boteco dia desses:
Pedro - Vocês receberam o email da Re? Ela está organizando os 10 anos da nossa turma.
Eu - Eu recebi. Mas respondi a ela que me nego a ir. Ela errou nas contas. Não é possível que já se passaram 10 anos.
Carla - Claro que não é possível. Eu ia ser alguém muito melhor, mais bem resolvida, mais bem sucedida, 10 anos depois do colégio.

A Carla sempre foi genial !
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Confissões de mulheres de 30 - texto de Domingos de Oliveira

- Eu vivo o Agora. O Agora ou Nunca. Eu tenho que comprar uma casa - agora ou nunca. Eu tenho que fazer sucesso - agora ou nunca. Eu tenho que ter um filho - agora ou nunca. Eu não acredito em principe encantado, nem na instituição do matrimonio, mas eu espero todos os dias que surja um amor que devolva as minhas crenças e esse amor tem que chegar Agora ou Nunca.

Meu comentário - Dá vontade de nem dormir mais antes de chegar o game over. Tem tanta coisa no meu checklist de vida ainda. PQP - Será que a vida é mesmo tão curta ? Não é, né?
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Gamei
Há uns dois anos, um caboclo tomava um chopp comigo, quando disse que era aos 25 era aquilo que ele imaginava ser aos 15. Tanto faz o que ele era aos 25 (e pelo que eu me lembro ele era tão ou mais duro do que eu), mas ele devia ser muito mais feliz. Nunca mais esqueci dele.
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Checklist

Estou riscando umas coisas a fazer da minha lista: conhecer a Europa (parte dela ao menos), viver fora, aprender ao menos um idioma descentemente.

Agora, só penso que na volta terá ainda uma lista enorme e não sei por onde começar...eu preciso comprar uma casa, morar sozinha, voltar a estudar espanhol, voltar a academia (afinal, o tempo tá passando), virar uma barbie depois de duas plásticas e sessões intensas de drenagem linfática, cuidar da minha pele custe o que custar, fazer uma pós, conseguir uma promoção, comprar um carro, aprender a tocar cavaquinho (comprar um), fazer um curso de fotografia e ter uma máquina bem legal, mochilar pela América Latina, morrer de paixão e encontrar um amor. Será que vai dar tempo? E dinheiro? E quantos carnavais restam ainda?
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Conforto

O que me conforta é uma vizinha que se casou pela segunda vez aos 70 anos e disse que nunca havia sido tão feliz, uma colega de trabalho com gravidez saudável aos 43, Sebastião Salgado ter começado a fotografar depois dos 40, grupos de naturistas cinquentões, e saber que toda escola de samba tem a sua velha guarda.

Então, enquanto houver pernas, haverá Carnaval.
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mulheres perfeitas

Tenho uma amiga linda, corpo de bailarina, toda bem cuidada, inteligentíssima, querida e bem sucedida. Dias desses, ela me conta que irá aproveitar as férias e alguma economia para fazer uma cirurgia plástica no nariz – que para mim, parece perfeito. Ela tenta me mostrar que não é, que tem uma curva acentuada, diz que sempre quis consertar isso e que sua irmã – a encarnação da Barbie - também fez uma cirurgia e ficou ainda mais deslumbrante.

Na hora fui contra e tentei encontrar outras pessoas para me ajudar a persuadi-la de que ela não precisa gastar um centavo nessa cirurgia. Argumentei que a vaidade é importante para que a gente se cuide, tenha uma alimentação regrada, se exercite, tenha cabelos e pele hidratados, mas plástica não é um cuidado, mas um reparo rápido e certeiro.

Depois, lembrei de meia dúzia de conhecidas com menos de 30 anos que já apelaram para o bisturi. As cirugias hoje estão mais seguras, práticas e baratas, quase tanto quanto trocar a cor do cabelo. Ora, nunca fui contra alguém tinge o cabelo (e isso também não é se cuidar), então porque seria contra a plástica? Daí achei que pudesse ser um pouco de dor de cotovelo minha, já que meu nariz é o triplo do dela e a plástica está longe de meus planos.

Não sei sou contra a plástica em jovens, mas o que me incomoda muito é essa busca pela perfeição. Todo mundo vem ao mundo com pé torto, ou nariz grande, ou peito pequeno, e é isso que faz a gente ser único e reconhecível sem precisar de biometria. Mas parece que todo mundo está comprando a mesma cara e corpo de uma prateleira. Basta ir a uma dessas baladas da moda, para ver que encontrar diferenças entre as garotas da fila parece tão dificil quanto um jogo de 7 erros. (Eu acho isso de uma chatice absurda, daquelas que dá preguiça do mundo).

Mas pior que essa uniformização de gente, que me faz lembrar o filme Mulheres Perfeitas, é o Dr. Hollywood e seus colegas terem criado uma geração de frustrados, por sempre buscar essa perfeição que nunca vem.

E por que a gente quer ser perfeito? A única resposta que me vem é à mente é para sermos mais amados – seja pelo namorado(a), grupo de amigos, ou por nós mesmo na frente do espelho. Uma pena a gente precisar desses artificios para sermos amados, não? E será que esses artificios funcionam? Temo que não e isso só nos torne ainda mais frustrados.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um diploma na mão e uma quarterlife crisis na cabeça


Não cheguei aos 30 e aquela fatídica crise do "não dei certo". Não ter "dado certo" aos 25 não é motivo de crise, já que ainda temos alguns anos para isso. Mas vivemos a crise dos 25 - que a "Eye Weekly" descreve nessa matéria e explica minha angústia depois de finalmente decidir buscar meu diploma.

No cinema, a Scartlett Johassonn personifica o "Quarterlife Crisis", em pelo menos 3 filmes: Vicky Cristina Barcelona, Lost in Translation, e Diário de uma babá (excelentes!). Em todos, ela é graduada, vive em cidade grande (Barcelona, Tóquio e NY), e está perdida, sem saber como irá "dar certo", qual seu talento, o que irá fazer com aquele diploma que não significa certeza alguma para ela.

As protagonistas dos filmes, assim como eu, estão entediadas, solitárias, confusas e ansiosas sobre suas carreiras, relacionamentos e direção. Por outro lado, temos a beleza invejável da juventude e uma liberdade sem paralelos. E por isso mesmo somos incapazes de fazer decisões, porque não sabemos o que queremos, o que somos, e isso porque podemos ser qualquer coisa que quisermos - diferente dos nossos pais, que nessa idade estavam construindo casas e famílias.

Já me passou pela cabeça: cursar Direito, pós em Sociologia, colocar silicone e malhar loucamente, fazer curso de teatro, cinema, barista, cavaquinho, fotografia, ser voluntária na Tailândia, escrever um livro sobre Cuba, morar Londres, ou virar pescadora em Canoa Quebrada. Eu posso ser tanta coisa, que fica difícil escolher qual desses caminhos me trará a tal satisfação que busco.

Essa crise é custosa, faz a gente gastar em cursos inúteis, manter a pose no sábado a noite, e não ficar em casa jamais, afinal, estamos na contagem regressiva para os 30/40 (eu tenho a lista de coisas a fazer antes dos 30) e não seremos jovens novamente. Logo, é preciso "have fun a lot". Isso explica os sucessivos "datings" vazios, sem expectativas e compromissos. Em um momento único de igualdade sexual, os rapazes não enxergam vantagem em se prender a uma garota. Eles conseguem sexo sem muito esforço com garotas interessantes, porque elas também querem aproveitar o momento. Além disso, vivemos um momento mais individualista, em que valoriza-se a liberdade, e fomos criados assistindo a casamentos frustrados e divórcios.

A crise dos vinte e poucos anos seria uma crise antecipada. Não há fracassos nessa idade, o tempo está a nosso favor, mas já não há aquela certeza de que "daremos certo", e pior, não há mapas - mesmo que eu leia livros de auto ajuda, a Você S/A, ou a Gloss.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O ano que não acabou



Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes amanhã

Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol


A nova minissérie Global - Querido Amigos - retrata 1989. O ano é emblemático. Na Alemanha, caí o Muro de Berlim. No Brasil, ocorre as primeiras eleições presidenciais depois da ditadura e Cazuza aparece doente na capa da Veja.

Uma eleição inesquecível, com cerca de 20 candidatos. Segundo turno com disputa suja e voraz entre Lula e Collor. Propostas completamente distintas. Era o início do marketing político no Brasil. E venceu quem melhor soube utilizar a TV. O mundo vê a vitória do capitalismo, o Brasil do neoliberalismo. Nada mais foi como antes. Os grupos que lutaram unidos durante a ditadura, cresceram e tanto eles quando seus filhos vivem dramas pessoais, individuais, íntimos. O sofrimento não tem mais cara coletiva. Os exilados voltam, os amigos se reencontram no meio do caos, sem mais ideologias, perdidos na nova liberdade.

A minissérie conta a história de uns 13 amigos, cada um com seu drama pessoal. Eu só tinha cinco anos, mas ainda hoje sinto o amargo de cada drama do folhetim na minha garganta. Acho que 1989 ainda não acabou.

Hoje, não acredito em nada. Casamento, politica, amor ou dor. Meus Queridos Amigos colocaram o pé na estrada. Estão a sua forma tentando Conquistar a América. E continuamos "resistindo na boca da noite um gosto de sol".

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Não é uma equação



Filme com boa montagem, trilha, e elenco. E claro, a história em si é muito boa e te causa conflito moral.


A mim, causou ao menos a parte final - o julgamento de João. A juíza se pergunta se o Direito é uma equação: flagrante + confissão - atenuantes = pena. Ela chega a conclusão que não, e é bastante branda. Fiquei um tanto revoltada de ver que o rapaz pegou pena de apenas dois anos de reclusão.


Apesar do filme mostrar o tempo todo que ele é só um menino grande, amoral, não um bandido sanguinário (taí a frase - Meu nome não é Johnny, é João!), poxa, é bandido, é traficante, sim. O advogado de defesa dele pareceu sagaz e mostrou que o réu festeiro não adquiriu bens, não tinha armas, enfim, não fazia parte do crime organizado. Tudo verdade. Mas qual a diferença se ele comprasse uma Ferrari ou se ele gastasse tudo em festa? O crime é como ele conseguiu o dinheiro e não como gastou.


Até que tomo um tapa na cara com a frase final do filme - na legenda - assinada pela juíza do caso. "João Guilherme Estrela é a prova real de que é possível recuperar alguém".


Poxa, então o que eu quero? Uma pena matemática? Por que trafica é trafica e merece mais pena, seja na cadeia ou sanatório? (tô parecendo o capitão nascimento, cruz credo). Ou eu queria que ele se recuperasse da amoralidade dele e de seus vícios? Acho que ele é um caso isolado. Talvez outro não se recuperasse ao encontrar o inferno. Mas por isso mesmo a juíza tem razão: o Direito não é ciência exata.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Chão, chão, chão

Quando confesso a alguém que gosto de funk, a pessoa se benze três vezes, dizendo Cruz Credo - Q horror!Concordo, não são os melhores letristas ou interpretes, mas o ritmo tem seus méritos.


Primeiro, há de concordar, a batida da música não é apenas sensual, como também sedutora. Não há muitas regras para dançar, o corpo lançasse naturalmente. Tente não reparar nas letras, apenas no som, que seu corpo se joga fácil.


Uma prova do poder e qualidade da batida carioca é a rapper pop MIA. Nascida no Sri Lanka, mas morando há tempos em Londres, ela mescla o funk carioca com outros ritmos como pop e hip hop e faz músicas com letras bem mais interessantes (fala até de gripe aviária), sem perder a sedução do funk carioca. Ah, dá pra misturar funk com samba também e o Monobloco saí arrebentando.


Quanto as letras, não sejamos hipocritas. O que você gosta de ouvir, Bossa Nova? Pois é, um ritmo gostoso, bem comportado, com letras quase parnasianas e bem cariocas. Mas "A coisa mais linda e cheia de graça" e "Rio você foi feito pra mim" é no minimo ingênuo, com letras feitas por quem se sentavam no Leblon, admirava o mar e nem notara que tinha um Vidigal ao lado. Pois é, já era hora de alguém olhar para o Vidigal.


As letras são exageradamente vulgares, eu concordo. Chega a dar vergonha de ouvir perto de crianças, pais ou avós. Mas mesmo com a mulherada se requebrando sem calcinha nos bailes, não dá pra dizer que o funk carioca coloca as mulheres em posição de objetos. Muito pelo contrário. Enquanto no axé, mas propriamente no espero extinto bunda music, as mulheres eram as dançarinas para músicas do tipo "Desce, desce, danada", "Olha o kibe", "Venha nega, vá", no funk elas tem voz ativa. Aliás, nem Rita Lee conseguiu fazer música que represente a mulher tão dona de si, quanto Tati Quebra Barraco e Deise Tigrona. Afinal é audaciosa e cheia de opinião uma mulher que vem a público cantar "A porra da buceta é minha" uma total quebra de tabu, uma mulher cantar "Daku é bom".

Pode faltar requinte em suas letras, objetivas demais, mas que são originais, são.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Julgador

Na peça A Pane, um juiz, um promotor e um advogado, todos aposentados, encontram-se semanalmente para encenar suas antigas profissões. Deve ser um tesão tão absurdo estar nessas cadeiras, que nunca mais é possível sair delas. É como se fosse uma espécie de divindade, com o poder de decidir o futuro de outra pessoa. Um juiz, ou um promotor devem brincar de Deus, muito mais que um médico. Este na prática pouco influi sobre a vida e a morte de alguém. Apenas ameniza dores.

Quando morrermos é possível que nos encontremos com o Homi. Alguém forte, grande, poderoso, cercado por anjos e com um dedo indicador enorme sobre nós - a hora do seu julgamento. Acho que tememos tanto isso que nossa maior vontade é ser O Julgador. Mesmo que a faculdade de Direito não esteja nos seus sonhos, mesmo que você odeie advogados (o q é bem natural), confesse, você já quis ser O Julgador.

Já reparou como dá um tesão maravilhoso quando falamos mal dos outros. Ai, aquele veneninho escorrendo pelos lábios tem um sabor de poder delicioso. Posso não decidir o futuro de alguém, mas tenho um indicador implacavel muitas vezes: "Fulaninha é burra", "Sicrano é brega", "Beltrano é feio".

Adoramos nos imaginar juízes, o que explica o sucesso dos realities shows. No Big Bother, você decide quem vai vencer, atribui a vitória e a derrota. Adoramos nos imaginar sentados na cadeira do Justus ou do Trump e meter o dedão indicador - You are fired! Talvez porque tentamos tanto nos safar da cadeira de réu, que corremos todo tempo para a cadeira de juiz, nem que seja por mera ilusão do poder.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Lugares comuns

Já reparou que em São Paulo quase não há lugares comuns entre privilegiados e não privilegiados? Conheço muita gente enjaulada - não andam mais ao ar livre, estão no carro, casa, escritório, shopping, balada, academia, clube, universidade - tudo com ar condicionado. Não tem contato com quem não foi convidado a pertencer ao seu mundo, e algumas vezes até coloca segurança na porta, pra ter certeza que mais ninguém vai entrar sem convite. O próprio litoral se divide. No Litoral Sul a classe C é permitida, mas em Pitangueiras no Guarujá, por exemplo, os prédios da orla tem funcionários que acordam bem cedo e já fazem uma espécie de cercado com guarda-sol e cadeiras para os moradores. Assim mesmo que acordem tarde, eles já terão seu espaço reservado. Farofeiro que fez bate e volta, ou alguém que tenha casa distante da praia, tá fora do cercado, excluido da praia.

Já os cariocas podem até desejar, mas não conseguem se livrar de lugares comuns. A praia é comum a todos. Criam a Barra, o piscinão de Ramos, fazem festa de reveillon na Zona Norte, mas não tem jeito. A galera do Vidigal tem vista pro mar e desce até o Leblon ou São Conrado. Se algum personagem do Manoel Carlos, a Ana Maria Braga ou o Chico Buarque quiserem dar um mergulho vai ter a companhia da galera de cima. Reveillon em Copa, você pode até comprar por R$300 o jantar na área VIP e isolada dos novos quiosques enjoados da orla, mas a bala perdida disparada lá no meio pode atingir você.

Não sei se ter esses lugares comuns é bom ou ruim. Mas acho interessante que redomas sejam quebradas, os lugares compartilhados, que todos saibam "eles existem".

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Conversa no avião

(...) alguma linguagem fática e simpática no vôo de Belém a Manaus(...)


Eu - O que você faz?

Moço da poltrona ao lado com um lap top - Eu exporto madeira.

Eu (indiscreta) - Então é você quem está desmatando a Amazonia?

Ele - Não. É o gado e a soja. Eu tenho que estar 200% legal para conseguir vender lá fora. Tenho que replantar.

Eu - Ah sim, vi hoje uns posteres de movimento ambientalistas para nos tornarmos vegetarianos. Tinha um boi desenhado, dividido em partes e cada parte representava um estado da região. E dizia assim: Você já comeu um pedaço da Amazonia hoje?

Ele - É. Mas que adianta ser vegetariano e comer carne de soja. Ela também está desmatando a floresta.

Eu - Mas a soja ocupa menos espaço que gado, né. E depois a soja também é usada para alimentar o gado.

Ele - É verdade. A soja estraga menos, mas estraga. Mas, as pessoas só trocam madeira por outro material. Que material vão trocar? Plástico? Acham que são ecologistas ao consumirem plástico? Aliás, paulista, quem mais consome a madeira da Amazonia é São Paulo, apesar da sede da Ásia.

Eu - Bem, vou deixar você terminar seu relatório.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O mérito do filme


Ao assistir um filme a gente se identifica com o narrador ou com o herói. No caso do aclamado Tropa de Elite - apesar de acabar torcendo por Neto e Matias, os heróis do filme – pessoas como eu só deveriam conseguir se identificar com a turma da universidade, afinal eu só vi fuzil no cinema mesmo.

Os coadjuvantes do filme: Maria (Fernanda Machado), Roberta (Fernanda Freitas), Edu e Rodrigues têm muita coisa em comum comigo e com pessoas do meu convívio. São bonitos, jovens, fazem faculdade, tem alguma consciência social, trabalham em ong na favela, lêem Foucalt e por isso, acreditam conhecer a verdade do mundo. Entre uma aula e outra eles dançam, namoram, ajudam crianças pobres, fazem passeata pela paz, e puxam um baseado.

Eles são apenas coadjuvantes, mas são mostrados como a causa de uma cadeia de acontecimentos no filme, e claro, na vida da gente. Ouvi pelo menos três vezes personagens sendo categóricos: “Quantas crianças a gente vai ter que perder para o trafico, só pra playboy poder curtir um baseado?” ou ainda “Pra mim quem fecha com bandido é bandido também”. Tapa na cara de quem está sentado na poltrona para parar de achar normal puxar um, vez ou outra.

O uso moderado realmente não parece danificar ninguém. Acontece que ninguém plantou a sua folhinha na jardineira de casa, ela veio de algum lugar – e o filme mostra que esse lugar é bem parecido com o inferno. E muitas vezes a mão que ajuda a comunidade e pede paz, é a mão que financia a manutenção desse inferno.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Dia dos Pais



No último domingo, um grupo de pais divorciados, os "Pais por Justiça", organizaram protesto com 365 bonecos de plástico com os olhos e bocas vendados colocados na areia da praia de Copacabana. Eles reivindicam mais tempo com os filhos quando há separação conjugal - instituindo a chamada guarda compartilhada (quando o tempo de convivência e a responsabilidade com as crianças são divididos de forma equilibrada entre pai e mãe). As vendas e mordaças representaram a manipulação que as crianças sofrem no processo de definição da guarda.


Embora a legislação preveja a participação dos pais na criação dos filhos, na prática ela delega poderes quase totais à mãe para decidir sobre a convivência paterna. Hoje, como a guarda compartilhada não é lei, a mãe deve concordar, detendo um poder desigual ao do pai.


Comovente ver um grupo de pais engajados em sua paternidade e loucos para participarem mais e mais do crescimento de seus filhos - de forma igual a da mãe.




Esse protesto me lembrou um dos filmes mais bonitos que assisti no ano
passado "A Lula e a Baleia", um filme delicado que conta com quatro personagens riquíssimos.


Na pelicula, Jeff Daniels compartilha a guarda de seus filhos de 12 e 17 anos (cerca disso) com a ex-esposa vivida por Laura Linney. É de arrepiar a interpretação de Daniels perdendo o chão e tendo que se adaptar a nova vida de pai divorciado. Ele é tão triste, quanto atrapalhado; e tão frágil, quanto perverso no trato com os meninos e com a ex.


Os filhos vão ficando cada vez mais confusos entre a casa do pai e da mãe, passam a sentir falta do cachorro, dos discos, de algo que seja deles, de uma unidade. Se deparam com o ciúmes, rancores, mitos perdidos frente as fraquezas de seus pais, e a confusão de como medir valores de certo e errado. Os adolescentes vão tendo que juntar tudo isso, se reconstruir e adaptar em meio ao conflito dos adultos e da sua própria descoberta da sexualidade.


O filme não tem nada de piegas, mas a boba aqui chorou de soluçar. Vale muito assistir!

terça-feira, 24 de julho de 2007

Narrativas de Conflitos

“Antes de ver uma guerra de perto, você acha que se trata de vitória e fracasso. Depois, você descobre que se trata somente do fracasso do espírito humano".

Robert Fisk, correspondente no Líbano do jornal britânico “The Indepent”, durante a mesa “Narrativas de Conflitos” na Flip 2007.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O fim dos CDs

Comprei um CD original do Bezerra da Silva por menos de R$10. Chego em casa animadíssima com a minha aquisição e minha irmã diz - Você é a última pessoa do mundo que ainda compra CD.


Sempre senti pouca culpa por comprar um CD pirata, afinal me sentia roubada pelas gravadoras também. Se um album original e inédito do Calypso é vendido por R$10, porque os nomes menos populares custam R$30, 40, 50? Em contrapartida, o piratão saí por R$5. As gravadoras jogaram a toalha e perceberam que não conseguem concorrer com o comércio ilegal, muito menos com os sites de downloads não permitidos de músicas. E na estratégia de guerra, se o inimigo é mais forte que você, alie-se a ele.


É isso que as gravadoras estão fazendo. Descobriram tardiamente, que a música em si, tocada no CD, na rádio, ou no MP3, é só um meio de divulgação, que o que enriquece e sempre enriqueceu os artistas são os shows (até porque os cantores eram roubados pelas gravadoras, com direitos autorais ridiculos e vendas de CDs mal contabilizadas).


Agora, as gravadoras também agenciam seus contratados nessa nova área, e aproveitam a pirataria como divulgação. O próximo álbum de Prince será entregue gratuitamente junto com um jornal inglês, dando fim a pirataria. O cantor é um dos mais bem pagos por seus shows, e sem gastar com seus CDs, os fãs poderão pagar mais caro pelo ingresso para assisti-lo ao vivo. Lucro. Shows lotados e cachê mais alto, graças aos álbuns gratuitos. (Britney Spears e Cia vão ter que aprender a cantar ao vivo agora)


O Teatro Mágico, fenômeno de público no cenário indepedente, se deu muito bem, pensando assim, sem precisar de uma gravadora para abocanhar seus lucros. O seu CD – Só para Raros - custa R$5 e o DVD saí por R$10, tudo feito de forma caseira. Resultado: shows lotados e cachê de R$40.000, equivalente ao superpop Charlie Brown Jr.


Novas bandas já lançam singles em pen drives e o Shank já ganhou até celular de ouro, por ser a banda que mais vende músicas pelo celular. Eles lucram e a gente ganha.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Em cascata

A mesa "Violência" da Flip teve como debatedores além de Guillermo Arriaga (Mexico), Denis Lehane (EUA) escritor da obra que inspirou o filme "Sobre Meninos e Lobos". Nos filmes, 21 gramas e Babel (roteiros de Arriaga) e Sobre Meninos e Lobos, há um emaranhado de histórias paralelas que se cruzam por um fato comum que vai cascateando e afetando a vida de outras pessoas. Essa é a visão comum sobre violencia que os dois autores têm.


Em um filme de ação, um soco ou um tiro acabam em uma cena. Para Arriaga e Lehane, não. Todo ação de violencia muda a vida de alguém, essa pessoa nunca mais será a mesma. E em seus filmes, essa história continua.


Os personagens de Tim Robins e Sean Pen tiveram suas vidas transformadas ao viver a violencia na infancia em "Sobre meninos e lobos". Em Babel, um tiro de rifle em Marrocos afeta a vida de uma família americana e sua empregada mexicana.


O que eles escreve na ficção, pôde ser visto de forma real na mesa entitulada "Sobre meninos e lobos" com Paulo Lins (Cidade de Deus) e Ishmael Beah (Serra Leoa - Muito longe de casa). Ambos são sobreviventes de guerras civis, declaradas ou não. E sabem exatamente como o convivio com a violencia afetou suas vidas definitivamente.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

O mundo é líquido

Idalina Candida, minha avó, um dia parou de brincar na terra e casou-se aos 13 anos. Ela não conhecia meu avô Antonio Rodrigues, mas era um moço trabalhador e seu padrasto escolheu por ela.

Juntos tiveram 4 filhos: José, Isaura, Antonio e Dirceu, o caçula temporão que chamo de pai. A família era nômade. Morava onde houvesse colheita, por isso, as crianças nunca puderam estudar. Nos anos 60, os três filhos mais velhos se casaram. Isaura e Antonio mudaram-se para São Paulo. E meus avós decidiram seguir a ninhada, já que a cidade em que estavam morando desapareceu do mapa depois que a fazenda de café faliu.

Meu pai por ser caçula é o filho mais urbano da família e com melhor vida. Foi o único que estudou, o primeiro a comprar um carro, casou-se tarde e foi morar em um apartamento no Centro da cidade.

Minha avó continuou fincada a terra. Apesar de tê-la conhecido até meus 20 anos, eu e minha avó nunca conseguimos nos aproximar muito. Éramos muito diferente. Ela era quieta, sizuda, analfabeta, adorava plantas e odiava me visitar. Eu era a única neta que morava em apartamento. Uma prisão para ela. Meu pai conta que eu tenho primas do interior do Paraná (que eu nunca vi) que pegavam rãs com a unha e que criavam porcos em casa. Eu nunca vi nem rã, nem porco a não ser em formato de pernil ou presunto.

Isso é praticamente tudo o que sei de minha avó, que parecia só rir para o meu pai, o filho favorito. Mas de tudo que já ouvi sobre ela, sei que ela era uma mulher sólida, com mãos ásperas, e que viveu até os 90 anos, cuidando de seu jardim de Hortências.(eu achava a casa da minha avó feia, por tanta simplicidade e hoje, me pergunto, como uma casa que tem um jardim de Hortências pode ser feia).

Tudo era sólido em dona Idalina. Ela nasceu sabendo que ora se planta, ora se colhe. Sabia que ia se casar com um homem escolhido e que viveria com ele para sempre. Sabia que atitutes iria tomar, por ser religiosa. Só conheceu um homem, e feliz ou não, jamais pensou em deixá-lo. Conheceu muitos lugares, mas só um jeito de viver.

Para mim tudo é líquido. Não sei com quem vou me casar, nem sei se vou me casar. Não sei com o que vou trabalhar e se vou conseguir trabalhar. Nem sei se Deus existe, muito menos se sou temente a ele. Tenho a ilusão de uma felicidade constante, capaz de me afastar de alguém que não me faça feliz por um momento. Minha avó teve Antonio ao seu lado até a morte os separar, na alegria, mas muito mais na tristeza.

Não sei qual de nós está certa, ou será mais feliz. Só sei que minha avó teve uma vida sólida, com atitudes sólidas, palavras raras e categóricas. E em mim, tudo é flexível e incerto. Meu mundo é líquido.

Faltou eu perguntar para ela...Vó você já foi feliz?

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Blogolatra

Embora não cuide tão bem desse cantinho, assumo sou viciada em blogs. Acesso todas as manhã vários. As vezes tenho mil coisas a fazer, mas é mais forte do que eu. Não consigo conter minha curiosidade de ver o novo post, os comentários feitos, é como se o dia não tivesse ainda começado. Entro no Blogger e clico em qualquer nome de blog atualizado que apareça. Adoro ver como as pessoas exercem sua liberdade de expressão. Faço comentários em blogs que desconheço. Considero a Soninha minha melhor amiga e o Felipe Machado minha paixão virtual.

Trabalho com comunicação corporativa de uma empresa de tecnologia. Preciso pensar o tempo todo na forma mais eficiente de ligar a empresa aos funcionários. Hoje, depois de muita resistência, um dos executivos lançou seu blog corporativo. Estou apostando na eficiência do veículo e ele que sempre mandou e-mails em massa para seus funcionários fez uma alusão que achei ótima. "O e-mail está para os adolescentes como o memorando em papel está para a minha geração" (ele tem uns 40 anos).

E artigos em internet? Fico procurando o botão de comentários. Artigos combinam com impressão, uma coisa estática e que para mim tem os dias contados.

Se eu estou conectada a uma rede que tem pessoas do outro lado, quero participar, quero discutir, blogar, comentar, debater, participar de chats, foruns. Artigos são pouco democráticos, impõe apenas a opinião do escritor, desconsiderando o leitor. Além disso, são distantes e formais. Por exemplo, o Noblat, o Josias de Souza, falam pra mim, enquanto uma Kennedy Alencar, uma Eliane Cantanhede me parece sem interlocutor, falando quase que para o seu editor. n

Outro ponto, discute-se muito que os jornais impressos tem os dias contados, mas a publicidade ainda investe muito mais neles do que na internet. E por que? Porque também se pensa a publicidade estática e impositiva. Compre isso! Vista aquilo!

Para mim, um grande exemplo de eficiência de publicidade é a campanha do HSBC "Sou assim e sou feliz" - os banners e pop-ups permitem que o internauta faça um teste sobre seu perfil, ou seja, é todo interativo, personalizando a propaganda e os produtos do banco. E ainda posso mandar histórias e votar na que eu mais gostar. A intenção é persuasiva, como em qualquer propaganda, mas agora é como se a Dona Elvira, que tem características como a minha, levassem um papo comigo. O melhor, dessa vez eu posso responder.

obs:Um especialista em Web 2.0 me contou que apenas 1% dos visitantes comentam blogs. Me animei ao saber disso.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O lugar nobre da casa

A mesa da sala de jantar de mais de 50 anos, herança da família de mamãe, definhou devido a peste dos cupins. Depois do velório do móvel, minha mãe foi bater perna atrás de outra mobilia. Comprou uma mesa de seis lugares, com mármore branco, cadeiras estofadas que combinariam com o restante da sala. Meu pai retrucou inutilmente que preferia um bar para o local.
Meu tio comprou um quadro de uma praia, bonito e com moldura grossa para compor a sala. Ficou linda. Era o lugar nobre da casa.

Tempo depois, minha mãe foi demitida após 20 anos na mesma empresa. A primeira coisa que fez com o fundo de garantia foi comprar o seu sonho, uma coleção de cristais: copos, vaso, bomboniere, fruteira. Tudo para a sala de jantar. Guardou tudo em plástico bolha e nunca usamos seu sonho. Ela diz que é para ocasiões especiais, que tem medo que os cristais quebrem.

A mesa de jantar foi usada poucas vezes, só quando vem visitas de almoços importantes. Aí os amigos chegam beliscam alguma coisa, conversam friamente e depois vão até a mesa saborear o almoço farto que minha mãe preparou com tanto capricho. A boca cheia de tantas delicias deixa todos calados. A nobreza da sala de jantar deixa todos formais e sem graça ao escolher o lugar na mesa.

Mas, quando o convidado é realmente especial, aquele amigo de longa data, que a gente adora receber, mamãe o chama depois do almoço para ir a cozinha. Aí ficam horas papeando enquanto lavam a louça e se enchem de café e do resto da sobremesa em pratos de vidro ou plástico. Na cozinha, o convidado já não é o rei, mas alguém de casa que abre a geladeira sem cerimônias. Esse sim é o convidado especial, em que está no lugar mais nobre e gostoso da minha casa, reservado para poucos.