Na última quarta-feira, acordei com a CBN repetindo inúmeras vezes e debatendo, ou melhor criticando, a declaração de Matilde Ribeiro, Ministra da Secretaria de Política da Promoção da Igualdade Racial.
BBC pergunta: E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?
Matilde responde: Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.
A resposta da ministra gerou polêmica ao dizer que o negro que se insurge contra um branco tem uma atitude natural, e não racista. A afirmação foi criticada por alguns como Cony e Xexeu que acreditam que a ministra incentivou o racismo de negros contra brancos. E ainda diziam: "Logo ela que deve promover a igualdade, fala sobre a desigualdade".
A assessoria da ministra tentou se retratar e tudo mais, mas eu estou com ela. Vale dizer, que enquanto ela fez a declaração, deixou bem claro, que não incentivava o preconceito e discriminação de forma alguma.
Para se promover a igualdade é preciso enxergar onde há desigualdade. Por isso, não vale dizer que não temos racismo. Matilde enxerga que há de ambos os lados. Porém um lado tem a ação, o outro a reação. A reação é natural, não é racismo, e ela está certa. Por que afinal, não é o negro que tem o poder e com isso exclui o branco, mas o contrário. Além disso, os negros não açoitariam brancos se não tivessem sido açoitados. Afinal, eles não escolheram viver no Brasil, foram trazidos a força.
Aí os comentaristas disseram: "Mas não vivemos mais na escravidão, a realidade é outra".
É claro que os tempos mudaram, mas uma frase dessa só serve para fingir que tentativas de homicidios de africanos como aconteceu com os estudantes da UNB recentemente não existem, que os negros não apanham mais de policiais do que os brancos, e que são excluídos de boa parte dos lugares de brancos. Conte quantos negros tem em sua sala de aula, ou na gerencia de sua empresa, ou mesmo morando em seu prédio.
Lembro que quando eu era criança e tinha só uma ou duas coleguinhas negras, tinha certeza que vivia em um país de maioria branca. Mas eu estava errada.
Pra mim, dizer que a ministra incentivou o racismo, é o mesmo que criticar o feminismo ou movimentos GLBT por serem contra o "macho", como se fossem contra a "maioria". Não são contra a maioria, são contra a maioria econômica e política (assim como disse a Matilde). São contra quem está no comando, os açoitando e na contramão de seus direitos.
Fico contente que alguém que não feche os olhos para as desigualdades que existem hoje, seja nossa ministra para promover a igualdade em um futuro próximo.