quinta-feira, 28 de junho de 2007

Democracia Racial Brasileira

- Uma empregada doméstica é espancada no Rio por jovens da classe média enquanto esperava um ônibus às 5 da manhã.
Como defesa, os garotos disseram que "pensavam ser apenas uma prostituta". (Remete ao caso do índio Galdino em Brasilia, em que os agressores também playboys pensaram ser "apenas" um mendigo")

- A UFRGS amanheceu com pichações - "Negro só se for na Cozinha, cotas não!" e "Voltem para senzala".
As manifestações fazem parte do tumultuado processo de implantação do sistema de cotas na universidade. O Conselho Universitário, que iria votar a adoção do sistema na semana passada, foi impedido de discutir o assunto por grupos de manifestantes que tomaram a reitoria para fazer pressão.

- Na UNB, incendiaram quartos de estudantes africanos.

- Dois sobrinhos do embaixador do Uruguai foram com o carro do tio (um Corola) até o shopping Iguatemi. Dois policiais os pararam, revistaram, chutaram, nada encontraram, mas os levaram para delegacia.

- A primeira protagonista negra em uma novela brasileira foi em 2004. Taís Araujo em "Da cor do Pecado".

Que é isso? "O racismo não existe no Brasil, a convivência entre brancos e negros é harmoniosa no Brasil".

É sim, desde que os negros fiquem da porta pra fora, façam uma festa bonita no Carnaval e vivam alegremente para servir aos brancos. Agora, ser protagonista, universitário, ter bom carro e passear pelo shopping de bairro nobre já extrapola a tolerância, né.

Essa é a democracia Racial Brasileira. Esse é o nosso homem cortês.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Lugares em São Paulo que merecem cena de novela

Walcyr Carrasco está dirigindo uma novela da Globo com filmagens em São Paulo, e a revista da Folha de ontem convidou-o para listar os lugares na cidade que merecem uma cena de novela. Gostei das sugestões que fugiram do lugar comum Paulista/MASP , e incluiu a Vila Itororó, um dos lugares que todo paulistano deveria conhecer e que eu tenho a sorte de morar no mesmo quarteirão.

Desde criança ouvia que era o casarão da Princesa Isabel, mas é só lenda, pelo que conta os arquivos do Museu do Bixiga. É um casarão de três andares que pertenceu a um ex-prefeito na década de 20. Chegava a ser cafona de tantos adereços: vitrais, colunas gregas, anjos de gesso no interior da casa, dois leões guardadando o portão e uma estatua de bronze na porta de entrada. Fantástico!

Há mais de 30 anos, habita uma família em cada cômodo do casarão, que dividem banheiro, cozinha e tanque, como nos tantos cortiços do bairro. Ao redor tem uma vila com umas 30 casas, algumas com estátuas, e tem até uma piscina desativada(também diz a lenda que foi a primeira piscina da cidade). Hoje, a Vila Itororó está toda deteriorada, dos leões que eu conheci na infância, ficaram só os pés. Os moradores ajudam a casa a não cair, mas se não tem vitral, vai qualquer papelão mesmo. Deve haver dezenas de projetos de restauração do casarão na Câmara, que nunca foram pra frente. Uma pena!

Na lista do Walcyr também estão a praça da Cerro Corá (simpática e bem alta, com uma bela vista da cidade), o skyline da Marginal Pinheiros (é que TV não tem cheiro), e os graffitis sob o Viaduto Cidade Ozaka, próximo a 23 de maio, uma obra cultura feita com a parceria entre as prefeituras de São Paulo e Paris (chique, né).

Falando em graffiti...


Na mesma edição da revista mostra que o projeto Cidade Limpa, apesar de bom em certos aspectos é burro em outros. A Prefeitura simplesmente tem pintado de cinza óu branco murais feitos por artistas renomados do graffiti, como Osgemeos (Otavio e Gustavo Pandolfo). Os grafiteiros são reconhecidos internacionalmente com exposições de suas telas, instalações e murais em Nova Iorque, Paris, Milão, Londres e Toquio. Pois não é que acabaram de dar sumiço nos seus personagens amarelos grafitados no Viaduto Antartica.

Graffiti é bem diferente de Monet e não precisa de galerias para ser admirado, basta(va) passar de carros pelas ruas de São Paulo e ter a arte te invadido. Graffiti não é sujeira, e é bem mais que uma solução para a pichação. É identidade da minha cidade, é comunicação, é criatividade, é arte. Pop, moderna, urbana, inteligente, sensível e gratuita - é uma pena que sempre há quem não queria admitir que o novo sempre vem.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Meninos não choram

Ainda bem que o Fábio não é um menino. O Fabio é um anjo que Deus colocou no meu caminho para eu rir mais, inclusive dos meus tropeços e das minhas tristezas. E para saber que eu não estou sozinha no mundo, existe uma outra pessoa tão lerda e ridicula como eu.

Portuga, quero rir e chorar (de alegria como hoje) junto com você pela vida toda.



segunda-feira, 11 de junho de 2007

Esse post é só porque Rio eu gosto de você

Estou em São Paulo há 15 tristes horas. A viagem ao Rio no feriado me encheu de boas energias, limpei a alma e estou renovada. Amei tudo que vi e vivi lá (exceto a rodoviária nojenta que tive de ficar por horas). Quero viver lá, pois descobri que aqui a gente mora, enquanto lá as pessoas vivem.
Conheci tantas coisas lindas, que me deixaram com olhos brilhantes e queixo caído, que é difícil de enumerar. Consegui bons cicerones cariocas e fui a lugares que nunca imaginei, fugindo do costumeiro Cristo/Pão de Açúcar.
Fiquei hospedada em Botafogo, em vez de Copacabana. Não me arrependo. Além de estar em um bairro central, tinha vista para o Cristo e para o Pão de Açúcar. As ruas lá são bem arborizadas e ainda há muitas vilas graciosas. O Hostel era mais família, porque em vez de turista, tinha muita gente que morava lá por meses. E tinha até churrasqueira, rede, macaquinhos, e aula de zouk.
Encontrei a doce amiga Anita (companheiríssima) e fomos almoçar em Santa Tereza. Pegamos o bondinho que passa por cima dos arcos da Lapa. Santa Tereza é um bairro com casarões históricos e tem aquele clima alternativo como a Vila Madalena, com bares e restaurantes com varadas, chorinho, ateliers, livrarias. Só que a vista é privilégiada, por estar em um ponto alto da cidade.
Não fui ao show dos Los Hermanos por pouco, mas nem tem tanto problema. O Amarante toca todas as segundas-feiras no Circo Voador mesmo.
Na sexta, acordei cedo e fui para o Centro da cidade: conheci a Candelária, a Matriz, o CCBB (adorei a exposição do auto-retrato falado e da China Hoje, além da arquitetura do prédio), Cine Odeon, Municipal, Arcos da Lapa de novo (adoro aquela continuidade), Biblioteca Nacional que estava em greve e não pude entrar, e Confeitaria Colombo, lindíssima, mas cara e pouco gostosa. Aliás comida e atendimento é um problema no Rio. Mesmo pagando caro era difícil comer bem. Atendentes distraídos, a comida fria, engordurada, mal passada, mal temperada, carne dura e cheia de gordura. ECA! Ah, e no Rio as regras são outras. Taxistas nunca ligam o taxímetro e filas são mero detalhe que não precisa ser respeitado, mas ao mesmo tempo que fazem isso, puxam papo, abrem o sorrisão e você fica até sem graça de reclamar.
Saltei de Asa Delta! Quis fingir ser corajosa, mas tremia de medo. Quase desisti. Mas aí, o instrutor se jogou e quando abri os olhos já estava voando. O Rio consegue ser ainda mais bonito visto de cima. Praia do Pepino, Pedra da Gavea, Floresta da Tijuca, as mansões de São Conrado, a Ponte Joá. Ai, ai, como é incrivel a combinação do cenário urbano no meio da natureza exuberante. E é um silêncio impressionante, parece que o mundo parou só para você ser dona dele e curti-lo completamente.
Fui do Mirante do Leblon até o Posto 9, andando com água no calcanhar. Pena o inverno não ter aqueles pôr-do-sol, que o pessoal se reunie para aplaudir. Ah, mas ver o Vidigal acendendo as luzes também merecia aplausos. Interessante a favela ter uma das melhores vistas da cidade. Encontrei alguns globais caminhando no fim de tarde e o Danilo, um amigo de São Paulo. Tomei sorvete em Ipanema, que é uma espécie de Jardins de São Paulo. Movimentada e cheia de botiques, cafés, bares e sorveterias finas. Com a diferença que tem a melhor praia da Zona Sul logo ali.
Fui a Lapa e não perdi a viagem. Ela está renovada. Os arcos ficam iluminados, tem shows de grandes nomes como Chico no Circo Voador, funk para os fracos, travestis, rodas de sambas no beco do rato, gafieiras, salsa, botecos, casa de shows com samba, choro, MPB, samba rock (têm muita música ao vivo e brasileira), antiguários que viram boates. Você pode pagar muito ou curtir de graça. A night da Lapa é perfeita para todos. A gente pára o carro e escolhe a pé o que fazer, lapeando. Como é gostoso ver o movimento, a cidade viva, bem no centro histórico e não dentro de um carro como na Vila Olimpia e Madalena. A Lapa é alucinante. AMEI!
No sábado, encontrei o Danilo na Lapa, na casa de uns amigos dele. A rua é uma espécie de Amaral Gurgel de São Paulo. Ponto de travestis, mas com uma vista impagável para vários cartões postais da cidade. O Eduardo e o Bruno amam aquele lugar efervecente. E eu também. Esses cariocas nos levaram ao Parque Lage. Um lugar que eu jamais iria se eles não me indicassem e que é indiscretivelmente lindo. Tem piso e azulejos portugueses, uma piscina entre as pilastras jonicas e o Corcovado bem atrás. Meu queixo caiu. O mais incrivel é que ali mesmo funciona uma faculdade. Ainda é rodeado de verde e tem um aquário de carpas dentro de uma caverna.
Uns amigos cariocas da minha mãe combinaram de me levar para umas praias depois da Barra. Pensei, "e eu lá quero conhecer a Barra. Deus me livre". Ainda bem que não me livrei. Depois da cafonice da Barra, vem o escandalo que é a seqüência Prainha, Macumba e Grumari. Não tem nem barraquinha de sorvete, só verde rodeando aquela praia de areia clara e fina, e ondas perfeitas. Inacreditável ter uma reserva divina bem na capital. Queixo caído novamente.
Na volta, passamos pela Niemyer e Ponte Joá, seguindo o pôr-do-sol. Eu quero pegar muito trânsito no Rio. Lá não é stress, é só uma pausa para curtir o visual. E ainda passei pela Lagoa que começava a se iluminar no cair da noite.
E por falar em noite. Que noite! Caí na night na Casa Rosa, um ex-puteiro em Laranjeiras. Dancei forró, reggae, mpb, maracatu, samba (tudo com bandas ao vivo), e fui até o chão no funk, só pra matar minha vontade de ir ao baile.
Em pleno inverno, o domingo foi de 30 graus às 10h00. Deu praia. Caminhei por toda Copacabana - eles fecham a avenida da praia e passeiam com seus cachorros, mostrando que cidade é algo em que se vive, não se corre somente. Fiquei impressionada com a quantidade de velhinhos jogando futvolei. Claro que levei um papo com o Drummond e fiquei pensando na vida, vendo o mar bater no Arpoador. Ai, ai, ai, o Arpoador. Os artistas e poetas só podiam ser cariocas mesmo.

Já estou morrendo de saudade do meu Rio de Janeiro.



sexta-feira, 1 de junho de 2007

O mundo é líquido

Idalina Candida, minha avó, um dia parou de brincar na terra e casou-se aos 13 anos. Ela não conhecia meu avô Antonio Rodrigues, mas era um moço trabalhador e seu padrasto escolheu por ela.

Juntos tiveram 4 filhos: José, Isaura, Antonio e Dirceu, o caçula temporão que chamo de pai. A família era nômade. Morava onde houvesse colheita, por isso, as crianças nunca puderam estudar. Nos anos 60, os três filhos mais velhos se casaram. Isaura e Antonio mudaram-se para São Paulo. E meus avós decidiram seguir a ninhada, já que a cidade em que estavam morando desapareceu do mapa depois que a fazenda de café faliu.

Meu pai por ser caçula é o filho mais urbano da família e com melhor vida. Foi o único que estudou, o primeiro a comprar um carro, casou-se tarde e foi morar em um apartamento no Centro da cidade.

Minha avó continuou fincada a terra. Apesar de tê-la conhecido até meus 20 anos, eu e minha avó nunca conseguimos nos aproximar muito. Éramos muito diferente. Ela era quieta, sizuda, analfabeta, adorava plantas e odiava me visitar. Eu era a única neta que morava em apartamento. Uma prisão para ela. Meu pai conta que eu tenho primas do interior do Paraná (que eu nunca vi) que pegavam rãs com a unha e que criavam porcos em casa. Eu nunca vi nem rã, nem porco a não ser em formato de pernil ou presunto.

Isso é praticamente tudo o que sei de minha avó, que parecia só rir para o meu pai, o filho favorito. Mas de tudo que já ouvi sobre ela, sei que ela era uma mulher sólida, com mãos ásperas, e que viveu até os 90 anos, cuidando de seu jardim de Hortências.(eu achava a casa da minha avó feia, por tanta simplicidade e hoje, me pergunto, como uma casa que tem um jardim de Hortências pode ser feia).

Tudo era sólido em dona Idalina. Ela nasceu sabendo que ora se planta, ora se colhe. Sabia que ia se casar com um homem escolhido e que viveria com ele para sempre. Sabia que atitutes iria tomar, por ser religiosa. Só conheceu um homem, e feliz ou não, jamais pensou em deixá-lo. Conheceu muitos lugares, mas só um jeito de viver.

Para mim tudo é líquido. Não sei com quem vou me casar, nem sei se vou me casar. Não sei com o que vou trabalhar e se vou conseguir trabalhar. Nem sei se Deus existe, muito menos se sou temente a ele. Tenho a ilusão de uma felicidade constante, capaz de me afastar de alguém que não me faça feliz por um momento. Minha avó teve Antonio ao seu lado até a morte os separar, na alegria, mas muito mais na tristeza.

Não sei qual de nós está certa, ou será mais feliz. Só sei que minha avó teve uma vida sólida, com atitudes sólidas, palavras raras e categóricas. E em mim, tudo é flexível e incerto. Meu mundo é líquido.

Faltou eu perguntar para ela...Vó você já foi feliz?