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domingo, 12 de julho de 2009

Amor maduro

O próximo livro de Talese será sobre seu casamento de 50 anos com Nan Talese, respeitável editora americana. A ideia de escrever sobre o assunto deu-se após as críticas recebidas quando publicou “A mulher do próximo” – em que retrata a revolução sexual na década de 70. Para uma densa apuração, mais do que entrevistas, Talese mergulhou no tema, participou de orgias e swings, frequentou e até gerenciou prostíbulos. Ossos do ofício de um escritor de não ficção.

Questionado sobre ter humilhado publicamente a esposa ao revelar publicamente sua infidelidade, ele concordou cabisbaixo e com sinceridade, porém justificou com a sabedoria de seus 77 anos. Para ele, casamento não é sexo, ou com quem você dorme. O mais importante em um casamento é o respeito. Para O Globo, ele disse ainda que deve-se estar casado com a pessoa com quem quer tomar café da manhã e não com quem quer ir pra cama. Qualquer imbecil pode dizer “vamos para cama”, mas tomar café...
Acho que em todos esses anos, Talese só tomou café com Nan.

Em entrevista ao Globo, Nan disse que nunca se sentiu humilhada, pois Talese sempre foi sincero e ela sempre respeitou sua individualidade e seu ofício de escritor.

Talese e o diploma de jornalismo

Eu meio que concordo [sobre o fim da obrigatoriedade]. Um curso de jornalismo não o torna jornalista. O que o faz jornalista é: um, curiosidade; dois, paciência para ouvir as pessoas, entender como elas pensam; três, apurar os dados certos. E número quatro, escrever. A escrita jornalística deve ser como a de um romance exceto que cada palavra é verdade. Na universidade, você não aprende isso.

Gay Talese, ícone do jornalismo, em entrevista para O Globo.

Gay Talese na Flip

Qualquer jornalista quer ser Gay Talese quando crescer. Jornalista/escritor suas reportagens se perpetuam em livros, e confundem-se com literatura, só que nada é ficcional. Consagrado por livros como "Fama e anonimato", coletânia de perfis de personalidades e desconhecidos de Nova Iorque, e "A mulher do próximo", um retrato íntimo sobre a revolução sexual nos Estados Unidos, Talese é o pai do jornalismo literário, aquele que todos sonham em fazer.

Entitula-se um rebelde do jornalismo. Começou a carreira como repórter de Esportes do NYT e ao cobrir uma luta de boxe, em vez de retratar a luta em si, contou a história da mãe do pugilista que chorava a cada golpe que seu filho levava. Um misto de sensibilidade, olhar apurado, e curiosidade aguçada.

Muitas de suas matérias não foram publicadas. Não havia espaço para isso em um veículo de hard news. E por isso, Talese defende um jeito de fazer jornalismo que ouça e conte as histórias das pessoas comuns, em vez de reproduzir pronunciamentos públicos. Em vez de correspondentes em Washignton, ele prefere ouvir estão como as decisões do governo estão afetando a vida das pessoas ao redor.

Ele tomou paixão pelo ofício de jornalista quando passava as tardes no atelier de seu pai, um alfaiate de New Jersey, e gostava de conhecer as histórias dos clientes. Assim, teve curiosidade e apetite de conhecer mais e mais histórias, e escrever não ficção como ficção.

Para contar essas histórias, ele faz muito mais que entrevistas. Ele mergulha e se envolve na história. Ao escrever "A mulher do próximo" gerenciou um protíbulo para entender toda a lógica daquele mundo tão diferente de perto. Um jornalismo necessário, mas de alto preço.

Agora, escreve um livro sobre seu único casamento de mais de 50 anos. Aos 77 anos, aquele senhor elegante de chapéu, que eu vi na praça de braço dado com a esposa, está com um apetite incrivel para desafios e isso dá um ânimo para quem o ouve.

Um outro Chico



Sobre a mesa “Sequências brasileiras” ou a mesa do Chico na Flip 2009

O poeta é um fingidor, mesmo.
Ao ser perguntado sobre as semelhanças entre Budapeste e Leite Derramado, seus dois últimos livros, Chico diz que em ambos fala sobre coisas completamente desconhecidas a ele. Nunca foi a Budapeste, e nunca viveu em 1930 como o personagem de Leite Derramado. E o que eu admiro é que ele ainda narra tudo em primeira pessoa, com a naturalidade de outrar-se impressionante, não?

Chico é fofo! Apesar de todos os flashes, fãs, jornalistas e alvoroço que o esperavam, ele se comportava com naturalidade na mesa. Apresentou mais bom-humor do que sua usual timidez. Teve ótimas tiradas, como “Imaginação não existe. Estava tudo no Google. No meu e no seu" (referindo-se ao livro “Órfãos do Eldorado” de Milton Hatoum, escritor que dividia a discussão com ele). Mas a melhor foi quando o mediador disse que Chico daria poucos autógrafos. E ele “quem disse?” Euforia geral.

Chico disse que acha escrever muito chato. Fica anos sem escrever nada, porque fica um tanto cansado e enjoado do ofício da literatura. E que escreve pelo prazer de ler. Alguns escritores na Flip disseram não se importar tanto com o leitor, que escrevem para si, o que acho muito esnobe.

Esnobou seu próprio livro, que é fininho e com tanto espaçamento e repetições que poderia ter 20 páginas apenas. Elogiou o de Hatoum de forma bem humorada. E ainda deu voz aos manifestantes da região – que discutiam a questão fundiária. E que voz. Euforia novamente.

PS: Órfãos do Eldorado parece ser um ótimo livro visto o emocionante trecho lido pelo autor durante a mesa de debate.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Flip 2009



Mais uma vez, fui à Flip. E como é bom!

As noites de julho em Paraty são frescas, a Lua é sempre cheia durante o evento, e contrariando o Climatempo, faz sol. Daí, a gente foge para a nossa ilha secreta.


Não poderia haver melhor cidade para sediar o principal evento de literatura do país. O lugar é mágico, é minha Passagarda. Não há carros, nem pressa, e as construções remetem a um tempo de delicadeza, ou a cenário de livro.


E após alguns dias perambulando pelas ruas de pedras, cheias de pessoas apaixonadas pelas letras, e ouvindo palavras encantadas de grandes autores, sinto-me a alguns passos do chão.

Paraty, minha Passagarda
A nossa ilha secreta