segunda-feira, 4 de abril de 2011

Maria Borralheira


Saí do armário e assumo: gosto de BBB. Há 10 anos, eu fazia parte do coro que maldizia o programa e tamanha futilidade. Mas este ano, o primeiro em que o Big Brother veio acompanhado do Twitter e Facebook (a edição passada eu não assisti, porque estava fora do país), notei que o coro mudou o tom e agora torcia, comentava e ovacionava o programa. E se eu já espiava vez em quando, nessa edição, acompanhei e torci (por Maria e Daniel). A cauda longa deixou tudo mais interessante, ao me deixar espiar dentro da casa e a reação imediata dos “julgadores” dos brothers. Afinal, julgar é o grande apelo do programa, muito maior que a curiosidade de observá-los diariamente. E agora, a gente julga, vota e até influencia outros votos se quiser.

Eu achava as outras edições entediantes, odiava os barracos, e considerava os participantes irritantes, ogros, fakes e detestáveis. Até chegar essa edição em que eu gostei de vários deles: Talula, Diana, Daniel, Lucival, Wesley. Mas sobretudo, me encantei com Maria, a campeã. Ela é divertida, carismática, a ponto de não ser opção de voto de quase ninguém dentro da casa. E tão espontânea que parecia não estar jogando, ao se lixar se estava queimando seu filme frente a seus jurados de seu caráter, quando se arrastava de forma ridícula atrás de Maumau e quando ficou com o Wesley.

A Grazi, uma ex-BBB a qual simpatizo, ficou entre finalistas e também porque era espontânea, linda, bem-humorada, simples, leal e simpática. Grazi Massafera é a barbi gente boa – tudo que você quer ser (eu queria ser linda e comilona como ela). Mas a Maria não é o que eu quero ser, é boa parte do que eu sou. Porque, né, quem não diz besteiras e é zombada por isso? Quem não cantarola letras erradas? Quem não bebe e dá barraco? E principalmente, quem não vai atrás do cara errado só por pirraça e faz papel ridículo? Confesso que já fiz e que atire a primeira pedra quem nunca fez.

Mas ela fez melhor, porque virou o jogo. Gritou breaca “Quer, quer, não quer, tem quem queira”, pegou o seu filet loirão, e ficou milionária. Maria é boa parte do que sou e ainda tem tudo o que eu quero ter – um milhão e meio no bolso, ser adorada por todos, e com um médico filet, carinhoso, e gentil. Ah, Maria é a Cinderela que me traz esperanças.

Lá pela metade do programa, chegou a insuportável Adriana dizendo que Maria sairia no primeiro paredão, porque o público não gosta de quem fica com dois na casa. Chupa, sonsa. A gente adora, e gosta mesmo é de quem não pensa no que os outros vão pensar, sofre, se descabela, e se diverte.

terça-feira, 15 de março de 2011

As rainhas do carnaval

Mulatas ou loiraças de corpos esculturais seminuas a frente da bateria, destaques em carros alegoricos, e passistas são sempre um famoso símbolo do carnaval. Mas há mulheres a frente não apenas da bateria, mas da escola inteira. Que me desculpem as musas, mas essas são as verdadeiras majestades do Carnaval.

Em São Paulo, duas das três principais escolas de samba são presididas por mulheres, Mocidade Alegre e Rosas de Ouro. Solange Bichara e Angelina Basilio são as rainhas que fazem o carnaval acontecer debaixo de chuva, com enchetes que destroem barracões, empolgando a bateria para que toquem com garra e capricho, os foliões para que cantem com vigor o samba da escola, lutando contra o tempo para as fantasias e alegorias ficarem prontas com o esmero necessário para encantar o juri e levantar o sambodromo.

Mulheres fortes, coloridas, energicas e alegres que gritam, vibram e não param um segundo até o fim do Carnaval para fazer sua escola brilhar e acumular titulos. No Rio, é a poderosa e destemida Regina Duran que arregaça as mangas para a Salgueiro fazer bonito todos os anos. E a Vila Isabel conquistou o quarto lugar esse ano com a inspiração de uma das poucas (até hoje) mulheres carnavalescas - Rosa Magalhães.

Porque se samba é um dom, o bom é poder ser o que você quiser: a colombina, a musa sarada e popozuda, a puxadora do samba, a que não é musa mas destrói na bateria, a porta-bandeira e até a comandante do espetáculo.

Solange da Mocidade
Angelina da Rosas

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ronaldo Futebol Clube


Como corintiana não me espantava sua aposentadoria – e acho que as razões eram nítidas aos olhos de qualquer um. Para a torcida tão intensa, que o recebera como rei mesmo gordo e destronado e agora pedia sua saída aos pontapés, era até um alivio. Sem trocadilhos, mas ele era um peso ao time, com salário de estrela e futebol a desejar, sem garra, paixão e aquela marotice que sempre me fez admira-lo.

Mas como fã, sofri e me emocionei, ao vê-lo se despedir. Não dá pra se lamentar e dizer que os jogos no Pacaembu terão menos brilho. Ele já não brilhava. O que me faz sofrer é me imaginar jovem ainda – 34 anos – tendo que abrir mão não só de sua carreira, mas de sua grande paixão. Deve ser cruel para atletas, que dependem de seu corpo. A cabeça mais madura, sabe cada vez melhor como se posicionar em campo, como tocar a bola, como deve ser cada jogada, mas o corpo te limita. Ronaldo disse com lágrimas nos olhos – “perdi para o meu corpo”, envelhecido, gordo e desgastado depois de ser o mesmo corpo, joelho e pernas que lhe deram tantas glorias, mesmo depois de 8! cirurgias.

Dizem que Ronaldo não soube parar, foi parado (assim como outro ídolo meu, Guga). Poderia ter se aposentado em tempos de gloria, mais jovem e quando ainda o chamavam de Fenômeno e não de Gordo. Mas futebol era tanto sua paixão, que jogou até o fim e isso me faz gostar tanto dele. Ele foi bem pago para voltar a jogar, mas acho que quando se tem tantos e tantos milhões, uns a mais já nem fazem tanta diferença. A diferença era ainda ouvir uma torcida imensa e louca gritar por ele – isso deve dar um tesão alucinante e viciante, que deve ser doloroso jogar a toalha e desistir.

Mesmo assim, o rei decadente teve uma semana de reverencias no mundo todo. Porque o Fenômeno não é Timão, não é Brasil, ele embasbacou o mundo com sua habilidade e velocidade com a bola – o cara que corria, driblava e finalizava, como se estivéssemos assistindo jogos de vídeo-game.

Ele se aposenta com uma historia que ninguém lhe tira - é ainda o maior artilheiro em Copas do Mundo (15 gols), jogou nos melhores times do mundo, foi a 4 copas do mundo, ganhou duas, uma no banco, outra na raça após uma grave lesão no joelho direito, e se fosse outra coisa que não brasileiro, teria voltado da França em 98 como herói que brilhou em campos, nos levou para a final e perdeu para o time que jogava em casa e com outro grande fenômeno em sua melhor fase: Zinedine Zidane.

Não me importa as polemicas, peso, convulsão, festas, travestis – com currículo mais extenso nessa área Maradona é Deus na Argentina – e eu sou Ronaldo Futebol Clube pra sempre, por sua paixão de jogar, suas jogadas geniais, sua capacidade de superação, por ter me dado tantas emoções, e ter me feito feliz ao trazer a taça de 2002, e ao poder comemorar ao vivo seus gols no Pacaembu pelo nosso Timão.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Por que amo Amy

Amy é a rainha dos escandalos. Seus porres chegam antes de seu talento e algumas vezes quando declaro minha admiração pela musa junk, anorexica, cheia de vicios, tenho que me explicar.

Claro que amo Amy porque ela tem a melhor voz de uma geração. Mesmo outras lindas vozes que recuperaram o jazz, tem um tom mais suave, mais baixo – o qual eu também amo – mas só ela tem a voz forte e poderosa, como herdada de grandes divas tão loucas e sofredoras como ela – algo como Nina Simone, Ella Fitzgerald, Billie Holliday e outras damas black.

E só pela fato dela reviver e até apresentar a minha geração e aos mais novos o melhor do genuíno black – em seu aclamado álbum Back to Black – ela já merecia minha devoção. Não é pouca coisa – há anos produtores devem ter esperado encontrar uma mulher com voz de diva e composições carregadas de emoção. 

Acima de tudo, amo Amy porque ela é forte e corajosa o suficiente para expor suas dores, mágoas e defeitos em suas musicas, em cima do palco e em primeiras páginas de tablóides. Ela é genial – sabe disso – e poderia andar firme e poderosa, arrastando todo seu talento, mas a pobre é frágil como uma menina que mal se mantém em pé.

Em shows, Amy confessa que morreu cem vezes – na linda Back to Black -, depois conta que se deprime ao cantar em sequencia músicas que compôs em momentos tão tristes; bebe e cai no palco. Cada vez que isso acontece, eu tenho vontade dar a mão a ela, ajuda-la, ampara-la, como se fosse uma amiga que me faz sentir tanta compaixão. Vamos Amy, levante, precisamos de você. Tão dúbio ter a voz tão poderosa, forte e grave, ao mesmo tempo ser alguém tão frágil, que parece não resistir a nada. Amo Amy justamente porque também sou dúbia. 

Eu amo Amy porque ela tem toda a intensidade, tristeza, descompasso, exageros e explosões. Eu amo Amy porque não vou ao fundo do poço como ela em minhas fossas, não piro, nem alucino, mas dentro de minha sensatez, sanidade e boa postura, reside uma parte que explode, grita, geme, caí, levanta, morre várias vezes, não tem lucidez alguma, mas dores, amores, magoas e loucura. Amo Amy porque sou uma medíocre que só pode guardar esse lado obscuro, porque existem gênios como o de Amy, que gritam e morrem por mim, para que eu não vá ao fundo do poço e para viver um pouco dessa intensidade basta ouvi-la.

Ah, Amy, eu também go back to black, eu também já morri mil vezes, eu também sou má. Obrigada por existir em meio a tanta mediocridade que sobem aos palcos com sons mecanizados, efeitos pirotécnicos,  roupas esquisitas e tão pouco a dizer.

Minha geração não tem mais Nina Simone, Nirvana, Rolling Stones, Cazuza, Mutantes ou Raul, mas temos você. E ainda bem. Porque é lógico que precisamos de ídolos com personalidades exemplares como Bono Vox, mas tenho medo de uma geração que só tenha a chatice do U2, tão certinho e com mensagens positivas. Também precisamos de  ídolos de carne e osso, como Amy, para podermos escoar nossas loucuras, sem ser tão louca assim.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Inabilidade

Na balada, semanas atrás:

Eu - Meus Deus do Céu! O que é aquele cara?!
Carol - Olha, ele piscou pra você!
Bruna - Vai, pisca pra ele de volta.
Eu - Mas é que eu não sei piscar de um olho só.

Treinei nos dias seguintes em frente ao espelho, com alguma melhora, mas sem grandes sucessos. E pra piorar, o moço piscante era tão gato, mas tão gato, que ao vê-lo facinho daquele jeito (quem pisca?), pensei logo, deve ser michê.

Feliz Caderno Novo

Comprei um caderno novo. Ter um caderno novo, limpo, com folhas em branco esperando para ser preenchidas, quiçá com muitas coisas boas, é uma sensação de renovação. Até mesmo os alunos mais desleixados, quando compram um caderno novo saem da papelaria prontos para conquistar o mundo, ir a Harvard, fundar o google ou ser o próximo Nobel da Literatura.

Eu vou só começar o ano e também um novo trabalho. As primeiras páginas ganharam apotamentos, com sublinhados e multicores sobre o novo emprego, a nova área, novos contatos. Até que é um bom começo para um caderno novo.

Feliz Caderno Novo!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2010 pelo retrovisor

Eu andei reclamona nos últimos tempos, mas olhando pra trás, 2010 pareceu o ano inesquecível. Em 2/3 dele, vivi o sonho de morar em Londres. O 1/3 restante, que parece ter voado, veio com muita sorte (mais no jogo, que no amor). Consegui mais do que eu desejei a meia-noite do dia 31 de dezembro de 2009. E o que não consegui, tem aí mais 12 meses novinhos para batalhar.

Tem um meme rolando entre vários blogueiros e decidi entrar na ciranda do jeito gracioso de fazer retrospectivas. Aí vai o meu: 

Meu lugar favorito de 2010 – Em 2010, conheci os lugares que sempre sonhei. As lindas e surpreendentes cidades: Paris, Barcelona, Edinburgh, Highlands, Lisboa, Amsterdam, Veneza, Florença, Praga...Mas de todos os lugares, o meu favorito foi a cozinha da minha casa em Londres. Eu chegava em casa e ia direto para lá, ter conversas intermináveis com o Marcílio, porres com o Leo, risadas com o Marc, jantares gostosos com a Bella, abraços e cafés com o David, queijos e vinhos com a Thais e muita bagunça com todos, sempre.

Se ali não me bastasse, ia a Southbank, caminhava a beira do rio, pensava na vida e voltava para casa mais leve. Saudade daquele rio.

O melhor dia de 2010 – foi o dia que minha mãe e minha irmã chegaram ao aeroporto de Healthrow para me visitar em Londres. Eu tava com uma saudade louca delas, super ansiosa, e chorei um tanto abraçada a minha mãe. Naquela noite, dormimos como quando eramos crianças, eu, minha irmã e minha mãe na mesma cama. Só pra não se separar nem um pouquinho.

A minha música favorita de 2010 - Não é de 2010, mas a todo lugar que eu ia, começava a tocar “I had the time of my life..” - a trilha sonora do Dirty Dancing. Eu me segurava para não achar que estava em um musical e sempre pensava que aquela música fazia sentido naquele momento. E eu sempre escutava no iPod - Coração Vagabundo - "Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim"

Em 2010 eu, pela primeira vez... - assisti a seleção brasileira jogar ao vivo; mochilei pela Europa; e mais umas coisinhas divertidas que não cabe contar aqui. 

Em 2010 eu pensei em fugir para … Barcelona.

Meu pior dia de 2010 – não lembro. Memória é seletiva.

Em 2010, eu tentei e não consegui – arrumar um emprego permanente e fazer bolo de cenoura;

Meu melhor presente de 2010 – o bolo de rolo que a Paola me levou em Londres; a cafeteira italiana que o David deu pra mim (como vivi sem ela?), e o jantar de boas-vindas do Paulinho.

A melhor compra de 2010 – o ticket do Interrail - viajei de trem pela Europa de um jeito super barato e com liberdade para pegar o trem para onde quisesse a hora que quisesse. Valia até se perder (como me perdi, acordando numa cidade de nome complicado na Eslovenia em vez de Florença).

Meu filme preferido em 2010 – Hmm, acho que vi tão poucos filmes...então, Tropa de Elite 2.

Meu blog preferido em 2010100 mililitros - eu já gostava muito dele em 2009, mas agora, eu leio para matar saudades também. Também descobri em 2010, os blogs da Deborah Klabin e da Natalia Klein (Fran e Bel eu quero mais atualizações para recomendar o de vocês, que tem excelentes velhos posts).

Além dos blogs que adorei ler, me diverti muito escrevendo o meu blog/diario de viagem Lena in London, ele foi parceiro e ouviu todos meus encantos e reclamações.

Meu vídeo do YouTube em 2010 – pulo. A Cerimônia tá no YouTube, Fran? Se tiver é o meu favorito de 2010.

Meu livro favorito – vergonha confessar, mas os dois diários de Bridget Jones. Era muito legal ler as descrições dos supermercados onde eu também fazia compras, as lojas, as comidas inglesas, e os pubs londrinos. 

Meu parceiro/a de 2010 – Marcilio - o melhor flatmate que alguém pode ter e o amigo que quero para sempre. 

Meu show preferido de 2010 – Já que lamentavelmente perdi o show do Paul, (por pobreza) e da Norah Jones (por motivo bom e inadiável) me contentei com Black Eye Peas, em que fui na faixa, vendendo cervejas. A produção é incrivel e qualquer um sabe cantar todas as músicas - goste delas ou não. Mas eu gritei mesmo foi no show da Maria Rita na Koko em Londres.

Em 2010 eu consegui...passar no teste do Cambridge, viajar sozinha, curtir dois verões um na Europa outro no Brasil, renovar minha licença no trabalho, cuidar da minha pele, não ganhar peso(o que não significa perder, mas empate fora de casa já é vitória ). 

Em 2010 tive inveja de... da Marmota que morava em Barcelona. Agora, eu também quero morar lá. Também ando sentindo inveja de quem mora sozinho em qualquer canto do mundo.

Em 2010 eu quase...quase me apaixonei, quase despiroquei, quase surtei, quase fui demitida,  quase fui deportada, quase fui contratada, quase fui a Grécia e a Túrquia.

Em 2010 eu descobri que...eu nunca mais estarei completa...eu sempre vou sentir saudade daqui ou de lá.

Em 2010 eu quis matar...o Felipe Melo, o Dunga, e os roomates folgados; 

E o troféu vergonha alheia de 2010 vai para...as eleições no Brasil, que tinha tudo para ser a mais interessante e bem debatida da história, para se tornar uma das mais tolas.

E o troféu me mata de orgulho de 2010 vai para...Carol Bueno, minha amiga que se formou em medicina.

Momento surpreendente em 2010 - A Amy Winehouse entrar no restaurante onde eu trabalhava em Londres e quase me matar do coração. Encontrar um amigo completamente por acaso no aeroporto em Lisboa - qual a probabilidade? 

Meu momento "Eu sou Ryka" em 2010 foi...receber um dindin que eu não esperava e viajar para Paris com Pass Museum.

Meu momento "Heleninha Roitman" em 2010 foi...numa balada em Leicester Square, aretuzando no meio do salão. Eu nunca mais faço isso e se fizer só se for com flatmates do lado pra me levar pra casa.

O problema de 2010 foi...o Felipe Melo, o Dunga; a falta de garra do meu time; não saber dizer não; não dar tempo ao tempo para as coisas se resolverem; ansiedade; saudade dos amigos que estavam aqui e agora, saudade dos que estão lá. 

O bom de 2010 foi...ter coragem de encarar qualquer parada. ter mochilardo pela Europa. viver em Londres na raça e no aperto. ter conhecido lugares e pessoas incríveis. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Todas as mulheres do mundo

Ganhei de uma amiga querida o delicioso livro Bordados – quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, autora de Persepolis. Apelidado de Sex and the City do Irã pela Time Out, o livro relata o cházinho dominical pós almoço entre a avó, tias e primas de Marjane – uma família liberal e de esquerda no Irã, mas que convive com as tradições e machismo – regado com um trico bem humorado sobre relacionamentos e sexualidade.

Ao ler o livro, sinto a deliciosa sensação de ser uma voyuer ouvindo as histórias daquelas mulheres, que vivem uma realidade tão distante da minha, em um país tão diferente, mas com os mesmos desejos. Descobri muito sobre o misterioso Irã que não estão nas notícias de jornal, nem nos discursos amedrontadores do ditador. Foi como entrar dentro da sala de estar, sentar junto a elas, e através de situações cotidianas, descobrir que todas nós temos muito em comum.

O livro é feminista, mas de forma sútil e bem humorada, longe do patrulhismo (as vezes rir é o melhor remédio). Além de ser o equivalente de tricotagem pra gente, a palavra Bordado, na gíria local, também tem o significado de “himenoplastia” - cirurgiã de reconstrução do hímen, discutido algumas vezes entre elas. Porque os desejos são os mesmos, mas as realidade e as tradições são por vezes mais cruéis do lado de lá.

Nessa conversa gostosa, elas concluem que falar da vida alheia e contar suas histórias é uma maneira de ventilar o coração. E só a gente sabe como ventila, não é – inclusive a linda amiga que me presenteou.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Psicose

É triste e cruel confessar isso, mas nada faz a gente se sentir tão bem quanto encontrar alguém pior que nós. É lógico que adoro quando meus amigos tem notícias boas, mas é delicioso também pedir umas cervejas e entre nós, compartilharmos problemas. Daí, leio HTP, Diário de Bridget Jones, e agora Adorável Psicose, para rir da desgraça dos outros, e gente pior do que eu nesse mundo, mas com muita coisa em comum.

Natalia Klein, protagonista, atriz principal e roteirista da série transmitida pelo canal Multishow, tem um blog de humor ácido, sarcástico e debochado chamado Adorável Psicose que deu origem ao seriado homônimo. Nele, ela conta situações reais e cotidianas de uma garota, insegura, paranóica, obsessiva, neurótica, desconfiada, irritada, meio maldosa (assim como eu) que lida com problemas existente e não existentes (mas eu e ela sabemos que eles existem e as pessoas só não confessam para não desmotivar a gente).

A série estreiou dia 17 de outubro e a primeira temporada conta com 5 epísodios de 15 minutos cada. Você pode assistir um trechinho aqui. No primeiro episódio, rolou uma identificação. Pensei: preciso correr para um terapeuta agora mesmo. Assisti ao segundo episódio e mandei uma mensagem para uma amiga tão psicotica quanto eu – você precisa ver isso. Assisti ao terceiro ontem, cheguei no trabalho e confessei que era muito engraçado (mas não disse de maneira nenhuma que me identificava). Daí, a menina do meu lado diz – eu adoro! Super me identifico”. Ufa! Porque se alguém vai até a TV e faz um roteiro pra contar que pe psicotica , só pode ser porque tem um monte de psicótica igual a mim e minha colega de baia para assistir, se identificar e adorar. Que alivio, não estou sozinha no mundo.

Porque toda mulher pode até ser meio Leila Diniz – assim divina – mas toda mulher – seja ela feia, bonita, gorda, magra, baixa, alta, rica, pobre, piriguete, gueixa, virgem, genial, burra, casada, engalhada – é meio neurótica. FATO!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ansiedade

“Se você não se distrai, a estrela não cai
O elevador não chega
E as horas não passam
O dia não nasce, a lua não cresce
A paixão vira peste
O abraço, armadilha”
Distração - Zelia Duncan

“Distraída”, “desligada”, “aérea” – amigos próximos sempre usaram essas palavras para me descrever. Não tenho foco suficiente para controlar meu dinheiro, dirigir, atravessar a rua, terminar de ler um livro. Diziam que iria viver muito se continuasse assim. Mas não continuei.

Dia desses acordei com o humor insistentemente intragável. Arrasada e irritada com minha falta de foco. Sempre atrasada, perdi alguns trens. E agora, acordo ansiosa. Apresso-me, mas não sei qual é a plataforma. Desespero-me ainda mais e sinto saudade da menina que andava tropeçando, porque olhava para o céu, assoviava e chutava latas.
A água sempre leva o mesmo tempo para ferver, mas sempre é mais rápido quando você não está olhando. O café não levava eras para ficar pronto, quando tudo parecia menos urgente, e eu preferia o acaso a essa espera que sufoca.     

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Como num conto de fadas

Sob inúmeros flashes, príncipe William e Kate Middleton anunciaram casamento. Kate é linda e eleganterríma (com vestido desenhado pela brasileira Daniella Helayel) e todos querem ver o conto de fadas entres os belos pombinhos. A ilha inteira prepara-se para jogar arroz nos noivos, uma grande expectativa para que Kate substitua a não menos bela Diana. Mas, as belas que me desculpem, minha princesa favorita é a Camilla Parker, a feia, a rotweiller, a do tampax.

Não acho nada louvável ser “a outra”, ter feito Diana sofrer, mas o que gosto é que Camilla é quase uma anti-princesa – feia e incorreta. Porém, Camilla é uma das poucas na histórias das realezas que realmente viveu um conto de fadas, em que a princesa é amada por muito e muito tempo por seu príncipe.

Desconfio de casaizinhos perfeitos, de princesas belas, elegantes, nobres, generosas, ricas e que se encaixam no padrão para ser amada por seu príncipes e seus súditos (e incluia nessa lista as primeiras-damas como Carla Bruni). Camilla mesmo feia e deselegante foi quem ganhou Charles. E mais...ganhou de uma linda e adorada princesa. Camilla é o triunfo das feias. Certamente, ela tem algo especial (como todos tem) para ser amada, mas que só seu príncipe conhece enxergar. Porque amar a Grace Kelly, qualquer um ama, né, mas Camilla...só o Charles mesmo.

ps: Por ser detestada pela opinião pública, e por ser divorciada, Camilla não poderá tornar-se rainha. Injusto!
ps2: sei que serve pra nada, mas eu queria muito estar em Londres para jogar arroz nesses noivinhos lindos. aliás, eu queria estar em Londres com qualquer desculpa furada. 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Encontre o amor da sua vida. Embrulhamos para presente.


Minha avó paterna mal conhecia meu avô ao se casarem. A escolha foi feita por seu padastro e ela aceitou com resignação. As vezes acho que depois que essa época cruel acabou, e as donzelas passaram a ler romances como A Moreninha, e mais recentemente assistir filmes de Comédia Romantica ou novela das 6, a busca pelo amor da sua vida está acirrada, complicada e diria até desesperada. São sites de relacionamento, speed datings, disk namoro, namoro na TV, dicas de sedução em livros de auto-ajuda e revistas, e tudo isso ganhando cada vez mais adeptos.  

Parece até episódio da Comédia da Vida Privada, mas anos atrás a Galeria Laffaiette, loja de departamento da high-society em Paris, aproveitou o mercado de corações solitários para praticamente vender o amor da sua vida em suas prateleiras, entre o Merlot e o caviar. Eles notaram que as vendas de comidas prontas em porções pequenas para solteiros aumentavam a noite. E assim, criaram toda quinta-feira, das 6h30 às 9h da noite, um  horário flirting-friendly.

Corredores de supermercado seriam um lugar mais neutro para um encontro às escuras e você ainda poderia identificar algumas afinidades, como apreciar queijo brie ou comida japonesa. Olhares pelos vãos das prateleiras, então uma mão sobre a outra disputando a mesma garrafa de vinho seguido de um convite para compartilha-la em um jantar romântico. Jovens produzidos desfilando com suas cestas e homens colocando iogurtes para dentro do carrinho ao invés do costumeiro engradado de cerveja e pacotes de bacon com medo dos olhares interessados em suas compras. Não sei se alguma paixão avassaladora ou casamento aconteceu graças a iniciativa, mas provavelmente a galeria teve um aumento na clientela às quintas-feiras a noite. 

Já a empresa de ônibus dinamarquesa Arriva queria incentivar as pessoas a usarem mais o transporte público e deixarem seu carro em casa. Começaram pelos solitários e criaram o assento do amor. Ó, que coisa fofa! Abra seu coração, seja ecológico, senta lá, sorria, puxe conversa com o loirão ou loirona do seu lado, o trajeto pode passar mais rápido e você pode até encontrar o amor da sua vida.


É amigos, o mundo é bizarro, mas all we need is love (and some money).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A sanidade venceu o medo

A frase acima não é minha. Foi publicada pelo jornal inglês The Guardian sobre a vitória de Dilma Rousseff como presidente do Brasil. Neste artigo, apelidam o candidato tucano de “Serra Palin”, comparando-o a conservadora republicada Sarah Palin dos Estados Unidos, uma vez que a discussão no segundo turno da campanha ficou bastante centrada em temas religiosos. E diz o seguinte:

“But in the end, sanity triumphed over fear, as voters proved to have been more convinced by the substantial improvements in their well-being during the Lula years than anything Serra had to offer”.

O artigo é um elogio ao governo petista, mas também aos eleitores brasileiros por sua escolha coerente. Diz que a campanha de Serra foi uma cópia ao modelo dos republicanos. Algo que tem funcionado nos últimos 40 anos nos Estados Unidos, porém no Brasil, os eleitores querem mais que discursos, querem saber quais melhoras práticas o candidato oferece para suas vidas.

O articulista procura englobar aspectos negativos do atual governo na política interna e externa e também questões importantes que a nova presidente terá de resolver. Vale a leitura sobre o que um dos jornais mais importante da Europa está falando sobre a gente.
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Ouvi gente bastante preocupada com a falta de experiência de Dilma. Declarando medo do que está por vir nas redes sociais. Não custa lembrar que durante a campanha de 2002, Regina Duarte também tinha muito medo do governo que viria com Lula. Certamente não foi um governo exemplar, mas foi um governo em que tivemos tantos avanços sociais e manutenção sensata da estabilidade econômica que na última campanha seus adversários mantiveram a figura de Lula quase que intacta. Atacavam a falta de experiência de Dilma, mas diziam que Lula tinha história. Antes da presidência, Lula não exerceu nenhum cargo político relevante, era especializado em campanhas, não em governos. E convenhamos, nesses 8 anos pior não ficamos, muito pelo contrário. 

Ó dúvida cruel

Via The New Yorker

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Presidente ou presidenta

Tanto faz. Ambos estão corretos. Temos prefeitas, governadoras, senadoras, deputadas, vereadoras, mas quanto se refere ao maior cargo político a gente fica na dúvida se é "presidente" ou "presidenta". Só temos dúvida, porque infelizmente nunca tivemos uma. Até agora.

Eu prefiro "presidente", porque esse cargo não foi inventado no domingo. Dilma só está mostrando que a cadeira estava disponível para o melhor candidato na visão do eleitorado e esse candidato finalmente e felizmente é uma mulher. Não ganhou meu voto por causa disso, não é exatamente a mulher que eu sonhava ver no planalto, mas quando a músiquinha do Plantão da Globo surgiu e Bonner anunciou com aquele sorriso e voz forte, que pela primeira vez na história ,o Brasil elegia uma mulher para a presidência do país, confesso que arrepiei.


Daí vem o discurso dela (um belo discurso por sinal), com esse palanque de dar arrepios. Credo cruz. Sabedoria e saúde para Dilma, porque eu temo o Temer.

Eu era tão criança e ainda sou

Estou prestes a fazer aniversário. Não acredito em inferno astral, mas acredito em crise de idade que aparece em época de aniversário.

Não me sinto velha. Nem poderia, né? Aos 26 anos a gente vende saúde e olhando minhas fotos aos 18, sou mais eu aos 26; as rugas não chegaram, a acne foi embora, e meu manequim diminuiu pra melhor. Mas a crise de idade, não é uma questão de me sentir velha, mas de viver quase como uma adolescente e completar 26 anos.

Ainda gosto da balada e tomo porres eventuais, rapazes novinhos (tipo um Fiuk) me fazem torcer o pescoço, não tenho bens, tampouco um meu-bem, não tenho pós ou MBA, não tenho emprego, não me oferecem o salário que eu gostaria, meto os pés pelas mãos com certa frequência, e ainda espero aquele moço interessante me ligar com a ansiedade adolescente de sempre.

Daí, em plena crise pré-aniversário, minha afilhada de 8 anos faz uma pergunta apavorante. “Madrinha, você não acha que está muito velhinha (não que você seja velha), mas você não acha que está muito velhinha para morar com a sua mãe?”. Nem me fale.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A putinha e as gordinhas

Ontem, a Folha de S.Paulo revelou um campeonato extra-oficial chamado “rodeio das gordas” ocorrido durante o InterUnesp em Araraquara. Após o evento, um dos 'peões' criou uma comunidade no Orkut, que já contava com 66 membros. Depois da divulgação na rede social, cerca de 60 estudantes protestaram e exigiram à universidade medidas para que fosse instaurado um processo disciplinar.

Essa história é tão absurda e ao mesmo tempo tão comum que mal consigo expressar toda a minha revolta.
O que revolta é que estamos falando de uma elite intelectual. Não é mais a Uniban, mas uma faculdade pública respeitada. O que revolta é que não estamos falando de um caso de um retardado isolado, estamos falando de uma comunidade que conta com 66 membros pelo menos. O que me revolta é que o 'rodeio' não foi só um caso isolado causado pela bebedeira dos jogos universitários. Os rapazes não tem a mínima noção de que o que fizeram não é brincadeira, então ficaram orgulhosos de seus feitos e exibiram seus crimes em uma comunidade aberta no Orkut. Bonito, hein?

O que revolta é ouvir de uma colega de trabalho, ex-estudante da Unesp, que coisas desse tipo e muito piores (como espancamento de mulheres) sempre ocorreram no Interunesp e só agora que vai pra imprensa a galera se revolta. Ainda bem que alguém finalmente teve coragem de levar isso a imprensa, à reitoria, à delegacia, porque é assim que deveria ter sido tratado o caso de espancamento. Não sabe quem bateu? que se abra um inquérito. Ainda bem que alguém ainda fica indignado com agressões, porque talvez isso seja comum nas universidades, e certamente não é só na Unesp, mas não é normal - É crime.

O que revolta é que a Uniban rapidamente decidiu punir Geisy Arruda por usar roupas impróprias, e a Unesp ainda não se pronunciou sobre esse lamentável episódio. Espero que respondam e com uma punição que entenda a dimensão do ocorrido, porque não estamos falando de uma brincadeira inconsequente (brincadeiras inconsequentes de universitários já levaram ao assassinato de um calouro na Faculdade de Medicina da USP, lembra?), não estamos falando de bullying, estamos falando de maiores de idade responsáveis por seus atos que cometeram crimes de: injúria, dano moral, crime de ódio, e agressão física.

O que me revolta é que a gente logo pensa, eu bateria num cara desses, se ele chegasse perto querendo montar em mim. Daí a gente nota que como mulher não teria condições físicas de encarar um homem no tapa, muito menos um grupo covarde deles.

O que me revolta é ouvir dias antes da publicação na Folha, colegas mulheres discutindo quão absurdo era Geisy Arruda estar na capa da Sexy. As meninas diziam que ela era a ´putinha´da faculdade, como tem em todas as faculdades. O pior é que ela tem razão. Não é só Unesp e Uniban, todas as faculdades tem ´gordinhas´e ´putinhas´; garotas ridicularizadas e injuriadas por algo que não tem a ver com ninguém.

E considerando que Geisy ou qualquer 'putinha´de faculdade tenha se oferecido e dado para todos os machões da faculdade, qual a lei que pune isso? Nenhuma, porque é dela e só dela. Daí, um dia, os mesmo machões que comeram ou deixaram de comer a ´putinha´da faculdade quase lincham a garota. E tudo bem, um monte de mulher na Uniban (que adoraria dar tanto quanto a putinha da faculdade) apóia, afinal é só uma 'putinha'. No dia seguinte, esse mesmo machão que açangalhou a tal ´putinha' que ele comeu, ou deixou de comer, vai açanganhar a gordinha, porque afinal essa é o tipo de menina que ele não quer comer.

Talvez Geisy tão criticada por ser a ´burrinha´da Fazenda, a ´putinha´da Uniban, e a ´aproveitadora´ que saí na capa da Sexy, tenha sido a mártir para que brilhantes estudantes da Unesp passem a notar que o que acontece lá, e em outras faculdades, não é normal, mas condenável e criminoso.

Vale Tudo

Casal do mal: a golpista sem coração Maria de Fátima e o gigolô César
Nunca mais dormi cedo. Agora, perco madrugadas assistindo a novela Vale Tudo. Em 1988, eu tinha só 3 anos quando essa obra-prima foi ao ar e sempre esperei ver as famosas cenas da morte misteriosa de Odete Roitman (Beatriz Segal) e Marco Aurélio (Reginaldo Faria) dando uma banana para o Brasil.

A música de abertura é Brasil de Cazuza interpretada com vigor por Gal Costa. A música parece casar perfeitamente com a história que está sendo contada. O autor Gilberto Braga é audacioso e procura fazer o que até hoje nenhum filme fez, um retrato do Brasil dos anos 80, pós-diretas. Um país que começa a se abrir politicamente e vive uma crise econômica voraz. O mundo perde suas ilusões e o muro de Berlim está prestes a cair. Enquanto isso, na vida comum do Rio de Janeiro, seus personagens lutam para sobreviver ou pra 'se dar bem' (nosso conceito mesquinho de progresso). 

Personagens amorais vividos com interpretações inesquecivéis almejam ser modernos, que significa viver nos Estados Unidos e ter status social. Para isso, usam como armas trambiques de todos os graus – o taxista que usa bandeira dois durante o dia para enganar passageiros, o garoto do Catete que mente ser rico para ganhar as garotas, gigolôs, subornadores, desvio de dinheiro, chantagistas, passando pela inesquecível protagonista Maria de Fátima, cujo sonho é dar o golpe do baú.

Braga está contando uma história que poderia se chamar “Até que ponto vale a pena ser honesto no Brasil?”. Aliás, a novela teve como título provisório “Pátria Amada”, que caberia muito bem, não fosse sua história muito mais universal que o Rio e o Brasil.

Serviço: Vale Tudo voltou a ser exibida desde 4 de outubro pelo Canal Viva em dois horários: 00:45 e às 12:00. 

Também falei sobre novelas aqui e aqui 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Laerte - sem barreiras


No post abaixo eu sugeri a leitura da entrevista do cartunista Laerte para revista Bravo. Eu tive o imenso prazer de passar uma tarde entrevistando ele anos atrás. Caí de amores por quem eu já admirava. Laerte é genial (afinal é o homem que criou Deus), tem histórias incríveis, é bem-humorado, humilde e extremamente simpático. Mas além de tudo, Laerte é profundo e corajoso.

Nos últimos anos, suas tirinhas mudaram de tom, assim como sua vida, após o fim de seu terceiro casamento, a morte acidental e precoce de um de seus filhos, e mais recentemente a tragédia de seu amigo, o cartunista Glauco. Considerado como nonsense e obscuro, perdeu contratos com os dois jornais com os quais colaborava. E entrou em uma crise criativa. Em meio a essa crise descobriu o crossdressing – grupo de homens que se vestem de mulher parcial ou totalmente. Ele passou a usar brincos, pintar unhas de vermelho, usar maquiagem, cortar cabelo chanel. As vezes usa salto alto, vestidos e até lingerie rendada. À Bravo disse:

O crossdressing, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites. É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres?”

É lógico que ao ver suas fotos, a primeira coisa que vem a cabeça é Bizarro. Sua namorada também achou a princípio, mas hoje já o ajuda a compor seu novo guarda-roupa. Sua identidade de gênero nada tem a ver com sua orientação sexual. Laerte está rompendo abismos de gênero ao se travestir. Está sabendo o quão feliz nós, mulheres, ficamos ao descobrir aquela cor de esmalte ou de batom, e nossa loucura por sapatos. E está expressando através de seu comportamento aquilo que Simone de Beavoir já afirmava “ninguém nasce mulher. aprende a ser”.

Assim como Laerte quero muito que um dia eu tenha menos obrigação de me portar assim ou assado por ser mulher, ou que um homem deva ser machão para mostrar-se homem. Eu espero que doçura, delicadeza e prazeres – sejam eles quais forem – sejam compartilhados por todos os gêneros e que a gente possa apenas ser o que quiser - sem limites, sem barreiras, sem negociar com nossos desejos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

É proibido ficar triste

A felicidade tornou-se uma obrigação. Claro que Vinícius de Moraes tem razão e é muito melhor ser alegre do que ser triste. Mas ele também sabia que para fazer um samba com beleza era preciso um bocado de tristeza. Para todo mundo, a vida tem um pouco de alegria, e um pouco de tristeza. É impossível eliminar conflitos, dores de cotovelos, doenças e mortes. Em algum momento, alguma dessas dores irá te pegar e você terá de encarar.

O que me assusta é que a felicidade é tão vendida na capa da Caras, em propagandas de margarinas, época de Natal, em livros de auto-ajuda, que não nos permitimos estar momentaneamente tristes. É quase uma prisão da felicidade, em que a vida tem que ser uma festa. Passamos a vida todo como se fossemos aquele anfitrião de uma festa fiasco em que o Amaury Jr está presente. Não há clima, descontração, alegria, mas as câmeras estão ligadas e então, o anfitrião finge tristemente animação e sucesso sem enganar nenhum telespectador. Tudo porque há uma pressão para que a festa seja um carnaval de alegria que torna aquele anfitrião, que até poderia ter algum motivo para comemorar, ficar triste. 

Não adianta fugir. A tristeza chega pra qualquer um e quando ela bater na porta essa obrigação de sermos felizes faz de nós ainda mais despreparados para lidar com ela. Viramos excessivamente ansiosos e não conseguimos esperar que ela vá embora. Daí, são duas dores: a dor de fato, e a dor por sentir dor. Então diagnosticamos por nós mesmo: depressão. Corremos para psicólogos, psiquiatras, ou terapias holísticas na esperança que exista uma solução simples e imediata como uma pilula, gotas de floral ou minutos de sabedoria que façam aquela tristeza desaparecer como em passe de mágica.

Mas a vida não é mágica, tampouco fórmulas. Tristeza vai, tristeza vem, e a gente tem que aprender a conviver com ela, quem sabe até aprender a partir dela. Não adianta joga-la pra debaixo do tapete, nem lutar boxe ou correr 15 km diários só pra que as dores musculares sobreponham as dores da alma. Admitir tristeza e feridas é corajoso e deve ajudar a cicatriza-las – esse é o principio do divã. Mas a obrigação de ficar bem na foto, pra todos, o tempo todo, só deve estar nos tornando dependente de antidepressivos, rasos e cínicos. Deixa a mascara cair. Se a gente soubesse que nosso colega de baia também tem o coração partido, talvez achássemos que o nosso é só mais um coração partido e que se essa dor passou ali e logo passa aqui também. Porque como diria minha sábia mãe, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.
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E por essas que admiro ainda mais o quadrinista Laerte. Ele é o homem que criou Deus! E também Hugo, Piratas do Tietê, entre outros. Suas dores passaram a fazer parte de seus quadrinhos, que perderam o humor e tornaram-se mais filosóficas, melancólicas e até obscuras nesses últimos anos. Laerte deu essa corajosa e sincera entrevista a Bravo, que vale muito a pena ser lida.