quarta-feira, 30 de maio de 2007

Será que ele tem um clone?


Invejo pessoas que são extremamente ativas, que conseguem fazer mil coisas ao mesmo tempo e com qualidade, e que acima de tudo, tem muita paixão por cada uma das atividades. Por isso, quando eu crescer quero ser o Drauzio Varella. Vi ontem uma entrevista do médico super star no Jô, E me perguntava - Acho que esse cientista descobriu a clonagem humana, guardou só pra ele, e tem um monte de Drauzios guardado no armário - Ou tem um antídoto contra o sono, que o permite fazer tantas coisas.

Não é possível queo Dr. Drauzio seja normal. Ele é oncologista e clínica em São Paulo, já deu aulas em faculdades nos EUA e Japão (Japão??), e é pesquisador. Participa do projeto de análise de plantas brasileira as margens do Rio Negro, que podem ser a solução para doenças como o cancer. Além do mérito cientifico e médico, esse projeto mostra a riqueza de nosso país, sempre citada, mas que sem uma grande pesquisa é totalmente desperdiçada.

Já escreveu nove bons livros, incluindo dois de literatura infantil. O de maior sucesso, Estação Carandiru ganhou prêmio Jabuti, e virou filme. O livro foi escrito com base na sua experiência de ter clinicado voluntariamente dentro do presidio por 13 anos, até o local ser desativado. Mostrou-se um excelente escritor e jornalista, mostrando que diploma é um detalhe sem a mínima importância. Aliás, ele ainda está lançando um documentário sobre sua experiência no Rio Negro, em que ele não é médico, mas entrevistador. Tem uma coluna semanal na Folha de S.Paulo e nas horas vagas, ele ainda tem quadros no Fantástico - de qualidade insuperável, diga-se de passagem. Já fez série de reportagens sobre Obesidade, Fumo, Natalidade,Terceira Idade (a série mais bonita que já vi na TV, com tamanha seriedade, informação, emoção e delicadeza). Note, nenhuma dessas áreas são suas especialidades, e por isso, demanda muita pesquisa para este que consegue tanto capricho em seus projetos. Ele também já trabalhou na Jovem Pan, dando esclarecimentos sobre prevenção da AIDS, quando o tema não era tão difundido, e mantém um programa de entrevistas no Canal Universitário.

Ah, ele ainda tem família e amigos. E sua esposa, a atriz, Regina Braga, diz que ele é do tipo que aceita qualquer convite, inclusive subir até o Pico da Neblina com uma equipe do Exército Brasileiro.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Pelas cotas

Hoje, estréia Piratas do Caribe 3. Assisti o primeiro da série e achei bom e só. Semanas atrás, a sensação foi o Homem Aranha 3. Assisti o primeiro e não gostei tanto. Mas, fiquei curiosa para ver o último. Shreek 3 estreia semana que vem e não perco por nada. Já assisti os dois anteriores e adooooro rever várias vezes com meus afilhados.

Os 3 Blockbusters têm em comum um marketing milionário. Resultado: números estrondosos de bilheteria.

Não sou contra filmes que são sucesso de bilheteria. Muito pelo contrário. Acho que agradar ao público tem que ser uma obrigação do cinema. Até me pergunto do que adianta o governo investir no cinema nacional se ele não consegue ser visto. É como gastar verba para construir escolas que não tenha alunos para estudar.

Porém, é muito difícil que o cinema nacional seja visto, e muitas vezes não é por falta de qualidade. Eu já perdi as contas de quantas vezes morro de vontade de assistir um filme nacional, mas perco a oportunidade. Isso porque eles ficam em cartaz em uma ou outra sala, por apenas um ou dois fins de semana.

Enquanto isso, esse fim de semana Piratas + Aranha dominam 68% das salas de São Paulo. No shopping Penha, os dois filmes estão em 100% das salas. No Shopping Santa Cruz, apenas uma as 11 salas não passa um dos dois filmes. De acordo com os guias de programação na internet, São Paulo tem 61 filmes em cartaz. Coitados dos outros 59 que disputam as poucas salas que sobram.

Não seria ideal se houvesse um equilibrio? Nada contra o sucessos de bilheteria. Aliás, acho que quanto mais sucesso fizer, mais tempo deve ficar em cartaz. Mas essa hegemonia das salas é covardia. Se você não escolheu seu filme desse fim de semana, e for ao acaso ao cinema, será praticamente coagido a assistir a piratas ou aranhas na telona.

Nas salas da Paulistas, as ditas como "cult" - Piratas e Aranhas dividem 20% das salas. Poxa, se temos outros 50 para ver, já é um sucesso um único filme ter 10% das salas. Imagine nas cidades que não são recheadas de cine-clubes como São Paulo, os Piratas devem ter tomado as salas de assalto.

Por isso, sou a favor das cotas nacionais no cinema. Caso contrário, investimentos que vem do nossos impostos para preservação da cultura estão indo ralo abaixo. Com reservas de salas é possível cobrar qualidade dos filmes nacionais antes de patrocina-los, bons filmes poderão conquistar o circuito comercial, ter retorno em bilheterias e chamar a atenção de outros patrocinadores. Além é claro, do espectador ter poder de escolha e valorizar a nossa cultura.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Albuquerque

Entro na padaria em frente ao meu trabalho, e tem um cabeludo sentado de costa para porta. É ele. Rodrigo de A. Sodré. Igualzinho há dez anos.

A única vez que o vi, eu tinha 12 anos. Ele 21, era monitor do acampamento da escola. Eu era a chaverinho da turma e prometi que me casaria com ele. Guardei na caixa azul(e ainda guardo) uma foto do Sodré. Esperei um ano inteiro até o próximo acampamento. Passei batom pela primeira vez, mas ele não foi. Só o vi novamente, anteontem, na padaria.

Aos 12 anos, era a primeira vez que um menino (ele já não era um menino) deixava de ser só um inimigo na guerra de bolas de papel na sala de aula. Era alguém pra suspirar. Tentava decorar e descobrir qualquer coisa sobre ele. Vi num cartão que se chamava Rodrigo de A. Sodré. Fiquei o ano todo pensando o que seria o A. - gostava de crer que era A de Albuquerque. Achava bonito: Al-bu-quer-que.

Anteontem, sentei de frente pra ele. Fiquei observando. Tudo igual à foto. Rabo de cavalo, bermuda e tênis surrados, sorriso grande. Pensei por um segundo em ir até lá e falar - Sabia que já fui apaixonada por você? Claro, que não fiz isso. Uns cinco ou dez minutos depois ele foi embora. E ainda não sei o que significa A.

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Albuquerque é a maior cidade do estado do Novo Mexico, no sudoeste dos Estados Unidos. População: 775 mil habitantes. Sede da Universidade do Novo Mexico. É tudo o que sei sobre Albuquerque.

Dois lindos meninos que tem suas fotos e cartas guardadas caixa azul mudam-se para lá em agosto. Um bom destino, uma boa coincidência.

Saudade

Meu professor de espanhol é chileno e me perguntou o que é saudade. Não existe na língüa dele. Aliás, dizem que só existe em português. Sempre achei tão estranho isso. Se não existe uma palavra, será que existe esse sentimento? E se existe o sentimento, como as pessoas conseguem expressá-lo? E por que será que só existe em português?

I miss you ou Te echo de menos - é como se diz em inglês e espanhol. Algo como Sinto sua falta.

Fiquei pensando como definir Saudade. Afinal, se a palavra existe é porque é diferente de "Sentir falta". Posso "Sentir falta" de qualquer coisa. Quando sinto fome, sinto falta de comida, por exemplo. Se sinto falta de ter um carro, pode ser porque nunca o tive.

Mas saudade é mais específico. É sentir falta da felicidade, que um dia se teve. É sentir falta de uma época em que se foi feliz, porque se tinha um lugar aconchegante, uma pessoa confortante, um sorriso constante.

"Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais..."

Ando sentindo saudade de uma tranqüilidade que já tive, de um sorriso mais freqüente, uma gargalhada fácil, de uma doçura que deixei em algum lugar, da minha molecagem da adolescencia, das árvores do meu colégio, de ser rodeada de amigos, de não invejar os outros, de ser extremamente otimista, de não ter 90 e-mails para responder, e mais um montão de coisas.

"Senti teu coração perfeito batendo à toa/
E isso dói/(...)Pode rir agora que estou sozinho"

"Vai ver que não é nada disso/
Vai ver que já não sei quem sou/
Vai ver que nunca fui o mesmo/
A culpa é toda sua e nunca foi"

Vamos brincar...

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Idéia de esssperto

Qual a função dos radares de transito? Evitar que motoristas ultrapassem a velocidade permitida. Agora, qual a utilidade de todos os radares serem sinalizados. Qualquer motorista esssperto pode fazer um racha pela cidade inteira, exceto onde tiver radar. Ou estar em alta velocidade e diminuir assim que vir a sinalização. Depois, é só continuar a pisar forte no acelerador. Ou seja, os radares perdem totalmente sua utilidade.
Aí o taxista me diz: Não, mas isso é bom, porque quem já sabia onde tinha radar não era multado, mas quem é certinho era.
Querido taxista, se você fosse certinho como motorista não seria multado. Afinal, as multas só chegam para quem cometeu alguma infração. Os certinhos é que se deram mal, porque vão ter que tolerar a farra dos infratores.

Eu sou do samba...

Semanas atrás assisti a "Música para os olhos", o documentário sobre Cartola. Ele mostra que um dos maiores gênios da música brasileira, na minha opinião até mundial, nasceu, viveu, e morreu pobre. Mas pobre de marré-de-si.

Ontem Zé Ketti foi merecidamente homenageado no Prêmio TIM. Cada samba mais lindo que o outro, cheio de poesia e como crônicas dos morros cariocas. Além de divinos, seus sambas são conhecidíssimos, como o "Eu sou do samba, sou natural aqui do Rio de Janeiro...". Nem precisa ser especialista em samba para já ter ouvido mesmo que por acidente algumas de suas músicas. Ou seja, mesmo tendo suas composições amplamente tocadas, gravadas, e regravadas, Zé Ketti também nasceu, viveu e morreu Pobre.

E aí a gente pensa. Poxa naquela época, a música não dava dinheiro, mas principalmente o samba não dava futuro, era coisa de vagabundo, de malandro. Mas, eles sempre tinham algum ganha pão (o Cartola era famoso, ia a TV, mas foi contínuo até o fim da vida).

Sábado assisti ao documentário "Onde a Coruja dorme" que tem como figura central Bezerra da Silva, a melhor caricatura de malandro carioca que Deus já inventou. (mto bom filme por sinal, divertido, com foco, fluído, passou rasteira no pretencioso Musica para os olhos - essa é pra te provocar Fran).

Assim como Zé Ketti, Bezerra é produto e cronista do morro, mas o filme não trata de sua biografia. Ele olha para o que está por trás do sucesso de Bezerra: seus grandes compositores. O filme é de 2001, e mostra alguns dos compositores jovens, entre seus 30 e 40 anos. Apesar de terem sambas conhecídissimos, ganham o pão de cada dia trabalhando como pedreiros, camelôs, comerciantes. São gênios, não tão poéticos como Cartola, mas cronistas como poucos. Deveriam ter ganhado uma grana enorme por suas composições, mas nasceram, vivem e vão morrer no morro. Eles fazem os sambas de malandros, mas trabalham de sol a sol. Ou seja, o samba continua a não dar sucesso, fama e nem dinheiro.

Alguém pode me explicar então como o Belo e afins conseguiram carrão, mulherão? Ou mesmo como enriqueceram os nomes que respeito e gosto muito como Dudu Nobre e Zeca Pagodinho?

Eis o mistério do samba.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Blogolatra

Embora não cuide tão bem desse cantinho, assumo sou viciada em blogs. Acesso todas as manhã vários. As vezes tenho mil coisas a fazer, mas é mais forte do que eu. Não consigo conter minha curiosidade de ver o novo post, os comentários feitos, é como se o dia não tivesse ainda começado. Entro no Blogger e clico em qualquer nome de blog atualizado que apareça. Adoro ver como as pessoas exercem sua liberdade de expressão. Faço comentários em blogs que desconheço. Considero a Soninha minha melhor amiga e o Felipe Machado minha paixão virtual.

Trabalho com comunicação corporativa de uma empresa de tecnologia. Preciso pensar o tempo todo na forma mais eficiente de ligar a empresa aos funcionários. Hoje, depois de muita resistência, um dos executivos lançou seu blog corporativo. Estou apostando na eficiência do veículo e ele que sempre mandou e-mails em massa para seus funcionários fez uma alusão que achei ótima. "O e-mail está para os adolescentes como o memorando em papel está para a minha geração" (ele tem uns 40 anos).

E artigos em internet? Fico procurando o botão de comentários. Artigos combinam com impressão, uma coisa estática e que para mim tem os dias contados.

Se eu estou conectada a uma rede que tem pessoas do outro lado, quero participar, quero discutir, blogar, comentar, debater, participar de chats, foruns. Artigos são pouco democráticos, impõe apenas a opinião do escritor, desconsiderando o leitor. Além disso, são distantes e formais. Por exemplo, o Noblat, o Josias de Souza, falam pra mim, enquanto uma Kennedy Alencar, uma Eliane Cantanhede me parece sem interlocutor, falando quase que para o seu editor. n

Outro ponto, discute-se muito que os jornais impressos tem os dias contados, mas a publicidade ainda investe muito mais neles do que na internet. E por que? Porque também se pensa a publicidade estática e impositiva. Compre isso! Vista aquilo!

Para mim, um grande exemplo de eficiência de publicidade é a campanha do HSBC "Sou assim e sou feliz" - os banners e pop-ups permitem que o internauta faça um teste sobre seu perfil, ou seja, é todo interativo, personalizando a propaganda e os produtos do banco. E ainda posso mandar histórias e votar na que eu mais gostar. A intenção é persuasiva, como em qualquer propaganda, mas agora é como se a Dona Elvira, que tem características como a minha, levassem um papo comigo. O melhor, dessa vez eu posso responder.

obs:Um especialista em Web 2.0 me contou que apenas 1% dos visitantes comentam blogs. Me animei ao saber disso.

Hoje tem filmão na TV


Lost in Translation O filme de Sofia Coppola virou "Encontros e Desencontros" no Brasil. Uma das mais infelizes traduções de títulos para o cinema.

Mas pouco importa - ele é belíssimo do mesmo jeito. Daqueles filmes que enquanto estamos na sala somos embreagados pelos sentimentos dos personagens e que quando saímos do cinema o filme cresce dentro da gente. Vire e mexe alguma cena me vem a mente anos depois e me arrepia inteira.

Vi algumas críticas do público que disseram que o filme não tem história. Na verdade, tem sim, mas é uma história tão banal, dessas que acontecem sempre com todo mundo, que a gente nem se dá conta que daria um filme. Deu. E só foi possível porque essa jovem diretora teve sensibilidade de sobra e contou com os talentosos Bill Murray e a então novata Scarlett Johansson (que boa aposta da diretora, no cartaz para o cinema nem aparecia o nome da atriz que virou a queridinha do cinema).

Ouvi dizer de outros que o filme é monotono. Sim, é. E esse não é um defeito, mas um mérito. O filme fala justamente de monotonia, os personagens estão extremamente entediados de suas vidas e isso é tão forte e a flor da pele que quem está na sala sente tédio também (aliás, o Bill Muray é o ator que melhor encarna um entediado - depois desse, ainda fez Flores Partidas - tédio que escorre pelos poros).

É um filme de gestos e olhares, onde pequenas atitudes representam muito dentro da história. Um filme que me arrepia de tão parecido com vários momentos da minha vida. A sensação de tédio, de perda de rumo, de melancolia, de se sentir minuscula em uma cidade, de sentir que não faz parte de nada que está a sua volta, de vazio, de dificuldade de comunicar-se, de amparo, de amizade, de paixão crescente. Altares para Sofia Coppola - Como alguém consegue colocar tantos sentimentos comuns em imagem?

E as cenas em silêncio? Noooossa - aquele silêncio diz tanto sobre eles e sobre mim. É tão precioso quando alguém entende o seu silêncio, não pede palavras, e o olhar basta. Esses momentos as vezes são tão raros e tão valiosos. (Já pensei em comprar várias cópias desse DVD e presentear como prêmios as pessoas raras que respeitam o meu silêncio).

Capítulo a parte

Bem a Scarlett merecia um post a parte. Ela devia ter uns 18 anos quando gravou o filme, mas já tinha uma maturidade incrível (afinal não é fácil dizer tanto de seu personagem quando se há muito silêncio em cena). Além disso, ela está lindíssima e natural. Nada contra o gênero femme fatale que ela incorporou hoje, mas acho que nesse filme ela está no ápice de sua beleza, de forma delicada.

Tem coisas que me deixam extrememante feliz. Assistir um romance sem esteriótipos, açúcar, rosas, músicas piegas, e príncipe encantado (o Bill Muray me parece bem longe disso). E conseguir me identificar com a Scarlett Johansson. Adoro imaginar que uma mulher linda como ela também é fragil e melancolica como a Charlote (do Lost in Translation) ou desengonçada como a Sondra (do Scoop).

Serviço: Encontros e Desencontros (Lost in Translation) - hoje, 11/06 - às 23h - na Record

Sinopse: Bob Harris (Bill Murray) é uma estrela de cinema, que está em Tóquio para fazer um comercial. Charlotte (Scarlett Johansson)está na cidade acompanhando seu marido, um fotógrafo workaholic que a deixa sozinha o tempo todo. Sofrendo com o horário, Bob e Charlotte não conseguem dormir. Eles se encontram, por acaso, no bar de um hotel de luxo, e em pouco tempo tornam-se grandes amigos. Resolvem então partir pela cidade juntos.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Tato

Na única vez em que nos separamos, esqueci - como sempre - de pegar a tolha na hora do banho. Ameacei gritar, porém não adiantaria, não havia ninguém em casa. Ela havia deixado sua toalha molhada no banheiro. Não reclamei de seu triste hábito. Eu me sequei exaustivamente com ela. Com o seu cheiro.

Fabricio Carpinejar

Audição

Eu não poderia ter cometido maior traição: roubei a manicure de minha mulher.

A manicure já era ocupada e tratei de me antecipar. O horário que restava era o do almoço. A esposa ficou inconsolável, mas deve ter pensado "melhor trocar de manicure do que de marido".

Ao fazer as unhas, eu me coloquei no lugar de minha esposa. Por que ela deixava tão radiosa o salão? Por que sua alegria era leveza ao visitar o carrinho de esmaltes, acetonas e algodão? O que eu me esforçava para fazer e a manicure resolvia sem sofrer? Não estou me referindo à beleza, mas à verdade.

Minha mulher chegava em nossa casa confiante, disposta, num estado semelhante ao meu quando voltava do estádio em vitória do time ou de um jogo triunfante com os amigos. O que passava lá?

Meses sucessivos observando as mesinhas com ardor indiscreto, levantando conversas absurdas, descobri a resposta: a manicure sabia ouvir. Ouvir com atenção. Ouvir com delicadeza. Ouvir frente a frente, ouvir com os olhos postos na boca. Não ouvir com os ouvidos, e sim com todo o corpo. Não ouvir correndo como eu, do quarto à sala, como quem já está pensando em outra urgência. Ouvir parado, com os pés mergulhados nos olhos. Não ouvir como eu, mudando de assunto como quem cumpre um inventário rápido do dia para se ver livre da preocupação.

Ouvia com disposição. Como se estivesse dentro de uma igreja ou de uma sinagoga. Ouvia baixinho, com a atenção cúmplice, como um pássaro diante de um miolo de pão, provando devagar e virando a migalha para o lado mais seco.

Como podemos compreender nossa mulher sem ouvir? Sem ouvir o que não interessa, justamente para criar novos interesses?

Ao invés de ficar pensando o que ele deseja, deveria desejar junto.

Apesar da intimidade, necessitei aprender de sua manicure o mais importante: o quanto ela quer ouvir de mim que simplesmente estou ouvindo. Não pede uma declaração de amor, pede meu silêncio compreensivo. Um silêncio alegre da identificação. Um silêncio seresteiro, de musicar o convívio pelas janelas.

Fabricio Carpinejar

Fim do abril despedaçado

Estava tirando um cochilo na antesala da Casa das Rosas e ouço um trecho da apresentação na sala principal, que dizia algo do tipo.

"A mulher quando finda um relacionamento, não deve sair dele com as asas quebradas, mas despida".

Não dá pra levar muito a sério isso, não sei se estava acordada ou sonhando, mas deve ter sido um sinal.

Bem-vindo maio. Já começo a despir-me das roupas velhas e despedir-me de um abril despedaçado.

Vivendo a cidade

Nunca fui tão apaixonada pela cidade como naquela noite. Era grandiosa, linda, democratica, cosmopolita, aconchegante, iluminada. A Virada Cultural 2007 foi encantadora, exceto pelo enorme tumulto no show dos Racionais. Mas não tomem isso por regra. Foi apenas uma das centenas de atrações que envolveram a cidade naquelas 24h.

O Centro lotado, a lua linda, o clima gostoso. Jovens conversando sentados na grama, filas imensas para entrar no Municipal (que fica impressionantemente lindo a noite), a Pça da Republica revitalizada e com teatro e circo, pick-ups de eletrônicos, assaltos de poesia, acrobacia na fachada do Shopping Light, pintura, e fanfarras com zambumba pelos caminhos, palcos para todos os gostos: de rock a bolero - e tudo sem paredes e sem ingresso, livre e aberto a todos. Gente que mal conhecia sua própria cidade, estava vivendo ela, fervendo nela, curtindo ela. E gente que passa pelo Centro todo dia, passou a ver mais do que trabalho e correria e medo, passou a ver museus, teatros, dança, música.

Foi dificil escolher o que fazer com o guia na mão. Num momento entre um show e outro, fui ao palco da Vieira de Carvalho - o mais encantador do evento. Batizado como palco da nostalgia, havia uma pista de dança, iguais as de salão, quadriculada em preto e braco e com globo prateado e cadeiras ao redor para os mais idosos. Uma banda maravilhosa tocava músicas da época em que "o Pacaembu lotava de homens vestidos de terno para ver as finais de campeonatos" - como disse o apresentador do baile. Fofo! Ele é magrinho, elegante, com gravata, negro de cabelos brancos, dublava as músicas entre os shows e reverensiando as senhoras damas que passavam. E não eram só as damas que passam na Vieira. Os travesti estavam em seu habitat e se misturaram ao público bem diferente do habitual. (Como a Vieira é uma rua curiosa. Ainda guarda o luxo de uma época, com lojas de chapeus, hoteis com estrelas, docerias finas, restaurantes tradicionais e ao mesmo tempo a passarela mais efervencente da cidade, com calçadas intrasitáveis aos sábados, muitos neons e bandeiras de arco-íris)

Depois de tentar dançar bolero e gafieira (e já tinha ido ao show do Alceu - o q é um palco iluminado com a Catedral lindíssima atrás - IRADO), tomei sopinha e café na Holandesa fui pra Praça da Republica ver uma peça. Lotada. Não conseguia enxergar nada. Triste, mas muito contente de saber que a população continua sedenta por cultura e teatro. Então, do outro lado da praça (que agora tem lagos e ponte) um grupo informal de engraxates e ambulantes tocavam "Desconsidero - do Fundo de Quintal". Caí no samba também, e o meu parceirão Judson até tocou pandeiro. O CCBB ficou aberto direto, com exposições e promoção de 50% na livraria, e o melhor de tudo, era um oasis, com banheiro limpo, bebedouro, papel higienico, sabonete. Nossa, que luxo, em uma cidade onde os homens não sabem a diferença entre banheiros e calçadas. E na frente do CCBB tinha a terceira pick-up, mas essa mais calma. Pirando no eletrônico com clubbers, estudantes, mendigos, um amalgama da sociedade.

Chegando 0h, não tava a fim da multidão do Nação Zumbi, nem da fila de horas e horas pro João Bosco, nem tinha como atravessar a cidade para ver o Paulinho da Viola, então fui pro Clube do Balanço + Erasmo na São João. Uma graça! Agora, dava até pra dançar, porque a rua era estreita para shows de multidões, como o do Teatro Mágico em que fui arremessada. (aliás, eles não levaram 1/3 daqueles fãs fanaticos na Virada do ano passado. Fenômenos).

Depois, vi um espetáculo de tango, que nem em Buenos Aires deve haver tão lindo. Misturando um pouco com balé contemporraneo, cheio de intepretações. De arrepiar!! -Arrepiei um pouco passando num vucuvuco na Rua Direta - pick-up de psy (só sei pq me informam q é psy). Mas se em rave de R$1000 rola muita bala e confusão, porque nessa não haveria de haver alguma também, considerando a concentração de pessoas perto do DJ.

Aí pego o metrô - isso já são 3h da manhã e pego o metrô - que beleza ele aberto na madrugada -devia ser assim todo fim de semana. E vou até a Casas das Rosas. Praticamente, uma festa particular. Era como se um amigo milionário abrisse a mansão pra uma festinha. E das boas. Forró de Trio, na madrugada. Na antesala sofás e a galera esparramada. Banheiros limpos e cor de rosa, com banheira e tudo. E móveis do Haroldo de Campos. Chique, né. Arrumei um bom dançarino e me acabei na sala. E então começa o espetáculo "Muitas mulheres e um Chico" - uma voz linda e doce recita poemas e canta músicas com nomes de mulheres - Cecilia, Beatriz, Ana, Barbara. Quase um sarau em que todos cantam em coro - Joga pedra na Geni.... - isso começa às 5h e eu já não me agüento em pé (pé machucado por sinal). Arrumo um puf abençoado para me encostar. Acordo com a doce voz, passarinhos cantando. Vou até a varanda e já amanheceu. Fantástico amanhecer na Paulista com jardim de rosas e passarinhos cantando. O espetáculo acaba e alguém toca violino na varanda, um grupo violão e voz no quarto. E tomo café caprichado e gratuito na edicula. Depois de 13 horas de Virada, virei um trapo.
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Espero que a confusão no show dos Racionais não faça a Prefeitura desistir de eventos como esse, mas melhora-los. A cidade precisa enfrentar o medo, precisa sair as ruas, respirar e matar a sede de cultura, ser democratica, ser livre. A civilidade só virá com tentativas. E convenhamos, respeito muitíssimo Racionais e gosto de suas músicas, mas juntar polícia e o público revoltado do rap é como juntar palha seca e fósforo. A confusão era esperada. E a polícia precisa rever seus conceitos - uma coisa é gás de "efeito moral", outra coisa é atirar fogo, mesmo que seja pra cima.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

A gente é para o que nasce

Quando se lembra da minha infância, meu pai sempre me conta a mesma história. Uma noite, ele chegou em casa depois de um dia de trabalho e aulas na faculdade, e eu com menos de 4 anos fazia birraça. Ele sentou na cama e me deu umas palmadas. Era a primeira vez que eu apanhava, e também a última.

Como era de se esperar eu chorei. Mas, o que me fez nunca mais apanhar de meu pai foi que em vez de sair correndo chorando, eu corri pros braços dele. Ele sentiu-se tão culpado com a minha reação que nunca mais apanhei e ele sente um remorço até hoje quando se lembra.

Gosto dessa história. Acho que ela diz muito sobre mim e todas as minhas reações até hoje. Essa falta de raiva, esse jeito ingênuo de se defender, e essa vontade de pedir proteção a quem me machuca.
Como é difícil mudar hábitos que parecem ter nascido com a gente.