segunda-feira, 30 de abril de 2007

Minha filha

No orkut, entrei em uma comunidade: "Saudade de um tempo não vivido". Para pessoas de 20 anos que gostariam de ter ido aos Festivais da Canção da Record, assistido a Elis ao vivo, ter uma juventude engajada, uma economia crescente, poder andar a noite no centro de SP, usar vestidos rodados de bolinhas, ter sido hippie e viver na comunidade da Baby Consuelo/do Brasil, ou namorar rapazes de topetes e lambretas, essas coisas de 50, 60, 70.

Bem, mas a real é que me entristeço, porque eu queria cantores, compositores, escritores, poetas que representassem a minha geração. Queria muito me sentir representadas com as aflições que tenho hoje.

Por isso me encantei com Fabricio Carpinejar, que conheci através do blog do Marcelo Coelho da Folha. O poeta acaba de lançar o livro Meu filho, minha filha. Só vi uns trechinhos no site, mas já fiquei com apetite de descobrir mais sobre ele.

Ele fala sobre um amor paterno muito atual. De um homem sensível e fragilizado, que vive distante dos filhos devido a separação da esposa, com saudade, remorço, e com um pires na mão pedindo migalhas de carinho e atenção dos filhos adolescentes.

Tem uma riqueza de imagens de tirar o fôlego. Emocionante e me faz lembrar com um tanto de dó do meu pai. Vem umas imagens dele tão pequeno, um dia em que ele chorou na minha frente (achava que pais não chorassem), pedindo colo, proteção, perdão. Depois, ele ontem em casa andando atrás da gente, contando do ex-marido de uma amiga que estava doente e que os filhos não iam ver. Parecia ter medo de ser abandonado, por não ser bem aquilo que eu queria que fosse, ou que eu precisasse que fosse.

Ah, sim, uns versos paternais do Carpinejar:

"Nem todos os pais podem dormir com seus filhos na mesma casa em que vivem. Como eu, alguns pais são separados, que dispõem apenas de um sábado e domingo para confirmar a paternidade e reencontrar o significado da família. Pai separado sempre está sob a ameaça de despejo. De ser trocado. Ou de ser esquecido".

Corto tuas unhas e reclamas/ que aparo muito rente da pele./Desculpa, tudo que vivi foi rente à pele.//...Eu te alfabetizei e foste/me tirando o espaço entre as linhas./Guarda-me apenas uma fresta.//Não importa o que os adultos falam,/serei o pai da insistência./Até onde posso ir para te resgatar?//Reclamas do teu pai, como se ele tivesse/ condições de se inventar de novo./Desculpa, corto as palavras/ muito rente da pele,/assim como descascava maçã e levava com a faca/ uma lasca por vez em sua boca.//Tudo o que vivi foi rente à pele./Deixei de ser pai e virei a pensão da tua mãe./Não esqueço o dia em que o oficial de justiça/bateu à minha porta a cobrar/ o que já concedia naturalmente./No papel timbrado, teu nome contra o meu.//O nome que escolhi contra o meu./O nome que sonhei contra o meu./Fui teu primeiro réu, sem que tu soubesses.

Quando brinco com as crianças// e faço palhaçada, elas se divertem,/menos tu//Tantas vezes ouvi tua vergonha/ explicando aos colegas,/com os olhos virados para cima:// 'Meu pai é louco'./Louco por quem? Já perguntaste?

quarta-feira, 25 de abril de 2007

E por falar em Ibope...

Cena 1
Vestindo uma camiseta masculina, ela senta-se na ponta da cama, enquanto seca os cabelos com uma toalha. Jovem, alta, uns vinte e poucos anos, pele morena, cabelos enrolados, corpo de babar."Você não tem idéia o bem que faz um jantar quente na vida de uma pessoa. E o banho! Nossa, você não sabe que chuveiro bom você tem. Parece que lava até a alma. E quente! Porque o meu é assim: três pingos e depois de dois minutos esfria" - diz a linda moça de sotaque baiano.
Na outra ponta da cama, um moço bonito, de ropão preto, olha interessado nos olhos dela, com um sorriso no canto da boca.
"Sabe eu tô aprendendo uma coisa sobre os ricos". "E o que é?" - pergunta ele, arrastando-se para mais perto da jovem. "Rico, mas rico mesmo, a gente vê nas pequenas coisas. Porque carrão, apartamentão, qualquer bandido por aí tem. Mas, chuveiro bom, toalha boa, até essa camiseta velha tem alguma coisa que você coloca para ela ficar assim macia. É aí que a gente vê quem é rico".
Ela muda o tom, olha pro nada e continua. "Hoje ia ser uma das piores noites da minha vida. A rua ninguém merece. A gente se sente uma criança de cinco anos perdida".
"Mas você não é mais criança. Não precisa mais ter medo". O moço passa o rosto na perna dela, beija, sobe pelo braço, rosto. "Sabia que eu conheço mulheres que dariam a vida para ter uma pele como a sua, macia. E o cheiro. Você tem cheiro de fruta. Um cheiro só seu". Ela ri timidamente. E caí uma lágrima. Eles se beijam delicadamente.

Cena 2

O mesmo quarto. Ela dorme. Ele está em frente ao lap top em uma mesa próxima a cama. Toca o telefone. "Acorda, chegou seu táxi". "Taxi? Que taxi?" - pergunta ainda sonolenta. "Seu taxi. Você não achou que só porque eu te dei comida, banho quente, que você fosse morar aqui, que iamos ser namoradinhos, né?".
Frustrada. "Não, claro que não". Levanta, se recompõe, arruma o cabelo, põe a mão na cintura e vira-se para ele. "Não sou dessas não que se enganam por qualquer coisa"- diz já com voz agressiva. Encara-o e estende a mão. "Você também não pensou que fosse ser de graça, né?". "Não, claro que não" - tentando disfarçar o esquecimento. Abre a carteira, entrega o dinheiro. "Agora é mais caro. Eu já tinha terminado meu expediente, foi você que insistiu". Entrega mais dinheiro.

Cena 3

Ela saí do banheiro com um vestido longo, muito decotado e justíssimo. Coloca a camiseta emprestada no sofá que ele está sentando brincando com o gelo do copo. "tô indo nessa". "Tá". Ela indica a porta com a cabeça. "Tá, eu abro". Ela nunca abre a porta. Ele a acompanha, salivando o seu caminhar. Abre a porta. Ela volta-se para ele. "Tchau". Ele aproxima-se para beijá-la. Ela recusa. "Agora não. Acabou o expediente". Vira-se e vai embora. Ele volta ao sofá, pega a camiseta, cheira e abraça. "Que mulher!"- diz com tom triste de despedida.
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Uma seqüência de cena perfeita, com atuação excepcional dos atores. Além de um texto bom e simples, cada pausa, corte, olhar e gesto dos personagens compôs bem a curta história, sem sair do tom. História até batida, mas com personagens bem construídos, o cara não era príncipe encantado - tipo Richard Gere - e ela não era a mocinha romântica, Julia Roberts, em Uma Linda Mulher. Era o encontro de dois vilões. Cena para ser colocada em filmes clássicos. Dessas de se lembrar por um tempão.

Mas não é cena de cinema. É novela, TV, e como tal não fica guardada, não vira DVD, não é vista em tela grande. Ela é a Bebel (Camila Pitanga), ele é o Olavo (Wagner Moura) de Paraíso Tropical do Giberto Braga.
Ele é o classico da Televisão (Vale Tudo, Anos Rebeldes e Celebridades, são geniais pra mim). E agora ficam falando de sua decadencia por causa do fracasso de audiencia da novela atual. Depois dessa cena e de um capítulo recheado de personagens coadjuvantes bem construídos, não consigo entender o motivo de tal fracasso.

Obs: Será que existe alguém mais noveleira do que eu?

Para aumentar o Ibope

Causar polêmica, aumenta o Ibope. Listas causam polêmicas, ninguém concorda com todos os itens, seja lá o que for. E usurpei a idéia da Francini e vou publicar aqui uma seleção de músicas, com categorias sugeridas por ela.

As melhores músicas para cortar os pulsos (na minha opinião, cada um que corte seus pulsos, ouvindo o que quiser)

1 - Atrás da porta - Chico Buarque
2 - O mundo é um moinho - Cartola
3 - Resposta ao Tempo - Nana Caymi
4 - Saudosa Maloca - Adoniran Barbosa
5 - Tatuagem - Chico Buarque
6 - Eu te amo - Chico Buarque
7 - Quase um segundo - Herbert Vianna
8 - Cidadão - Zé Geraldo
9 - Mentiras - da Adriana Calcanhoto
10 - Metade - Adriana Calcanhoto

Músicas pedagógicas sobre a vida (ou o que aprendi com as músicas, ou vida: modo de usar)

1- Perdendo os dentes - Pato Fu
"As brigas que ganhei nenhum trofeu como lembrança pra casa eu levei/
As brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci"

2 - Vencedor - Los Hermanos
"Faço o melhor que sou capaz, só pra viver em paz"

3 - Tocando em frente - Maria Bethania (não sei quem compôs)
"Ando devagar pq já tive pressa..."

4 - All you need is love - Beatles
já diz tudo, né

5 - Redescobrir - Gonzaguinha
"Somos a semente, ato, mente e voz, magia"

6 - Andança - Danilo Caymi
"E jamais termina meu caminhar/
Só o amor me ensina onde vou chegar"

7 - Samba da benção - Vinicius de Moraes
"É melhor ser alegre que ser triste..."

8 - O que é o que é? - Gonzaguinha
"A beleza de ser um eterno aprendiz"

9 - Balada do Louco - Mutantes
"Eu juro que é melhor não ser um normal, se eu posso pensar que Deus sou eu"

10 - Vida louca vida - Lobão
"Vida louca, vida. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve"

segunda-feira, 23 de abril de 2007

A vida pulsa

23 de março

Milena – Ele vai viajar por seis meses.
Judson – E você como está?
Milena –Insegura com a viagem.
Judson – Não. Eu perguntei como está a sua vida.


O Judson é um amigo com perguntas aterrorizante às vezes. E eu? A pergunta mais simples e que eu não tinha resposta, preferi mudar de assunto. Mas fiquei tentando responder para mim. E eu? Onde estou? O que sou eu sem ele?

21 de abril
O que sou eu sem ele? Continue sem conseguir responder a tal pergunta. Mas agora, ela não é pergunta, é obrigação. A vida continua e como disse um doce amigo “Há vida sem ele”. Então, está fácil. É só viver.

Sábado. Me perguntei “O que eu fazia aos sábados há três anos e meio?” Não lembrei. Antes tinha aulas, depois ia inglês, fazia algum trabalho da faculdade, saia com os amigos. Agora, estava no ócio. Acordei, mas não quis levantar. Para que levantar quando não há o que fazer? Mas era preciso que eu saísse da cama para a faxineira poder arrumar o quarto. Levantei. Pronto, agora era só viver. Li o jornal. Assisti ao jogo de vôlei. Fui tomar banho, longo, porque assim o sábado passaria mais rápido. Almoço. Televisão. Relógio, ainda tinha muito sábado pela frente e isso não era bom. Chuva. Granizo. Sair nem pensar. Dia triste, horas tristes. Mais televisão. Programa bobo, mas divertido. Droga, o que é engraçado faz lembrar do sorriso dele, que me sacudia para dizer que estava achando aquilo muito engraçado. Toca o telefone. “Olá, sou Eliana da NET”. Hmm, bem que eu preciso mesmo de banda larga. Estendo a conversa com a moça do telemarketing pela primeira vez da vida. Ó ócio, ó solidão.

Não vou ligar. Não vou ligar. Ligo, mas ninguém atende. Ele retorna. “É que eu
queria saber quanto você paga na banda larga com a TV a cabo, é que a concorrente me ligou com uma promoção e eu preciso decidir”. “Não sei, meu pai quem paga. E você está bem, o trabalho, o espanhol?” “Estou. É isso, então, obrigada”. “Então ta. Beijo”. Silêncio. Ninguém desliga o telefone. A voz dele estava boa, droga. Ele não foi ensaiar, nem trabalhar, isso faria o sábado dele mais vazio, logo mais falta de mim. Mas, ele não disse que sentiu minha falta no primeiro sábado sem mim, droga. Eu senti falta primeiro. Será que pior que sentir falta é mostrar que sentiu falta? Lógico que é. Sou uma otária, e das grandes. Desligo depois do silêncio.

Ligo para uma amiga. “E aí animada para nossa viagem?” “Muuuuito. E você como está?” “Triste” “Pq?” “Estou bem, mas terminei o namoro no domingo. Do mesmo jeito de antes, as mesmas palavras, tudo igual” “Ih, ele não presta mesmo. Eu tenho até dó dele” “Estou bem, mas sábado é um dia terrível” “O que vai fazer hoje?” “Nada, humpf” “Então, vamos no baile da minha escola de dança. É tãoo legal. Você vai adorar e hoje eu estou muito feliz”.

Sete doces amigos a quem dei a notícia: Drica, Portuga, Fabio, Carol, Judson, Marina e Toquinho. Doces amigos diminuem o peso de qualquer ausência. Não há dor, mas preciso deles para que me ensinem a viver a partir de agora. E para que eu possa responder a pergunta ao Judson. E eu? O que sou eu sem ele? O que eu gosto de fazer? Com que eu gosto de estar? Que lugares eu gosto de ir?

Eu, sem ele, gosto de dançar. Eu dancei muito no sábado. Do jeito que eu queria. Aprendi passes novos, lugar animado, pessoas com bom astral e tranqüilas. Nada de bêbados, ou cheiro de cigarro, ou pessoas estranhas te segurando pelo braço. (Parecia minhas festas da adolescência. Ah, as festas na casa da tia Stela, que saudade. As melhores e mais inesquecíveis da minha vida e da vida de toda a nossa turma).
Pronto, o sábado acabou. Vivi e dancei, e até que não doeu tanto.

Dia 22 de abril – Dia do descobrimento
Acordo tarde na casa da Toquinho. Café, Jornal, Televisão, Almoço, Almodóvar.

Penélope Cruz é Raimunda. Linda, como nunca. Seu marido bêbado tenta estuprar a filha, que o mata. A traição do marido, a fragilidade da menina, o asco. Depois, o corpo do marido ensangüentado na cozinha. Não há tempo para chorar. Ela limpa tudo. Enrola o corpo em um tapete. O telefone toca, a tia querida morreu. Mais um motivo para chorar, mas não há tempo. De repente, na porta, uma oportunidade de esconder o corpo do marido e depois de ganhar a vida dignamente, sustentando a filha adolescente. Não há tempo para chorar. Esconde o corpo e trabalha, trabalha, trabalha.
Descobre-se cantora, descobre-se cozinheira, descobre-se empreendedora, descobre-se forte, descobre segredos de anos, descobre cúmplices, descobre o colo da mãe, descobre o perdão, descobre sua história.
Na vida, não há tempo para chorar. Ela pulsa. É preciso descobrir a todo tempo. As descobertas podem ser trágicas ou saborosas.

O filme acaba. O Judson passa em casa para irmos ao teatro. “E aí, está feliz?” “Estou bem”. Estou pulsando, vivendo. Será fácil. Um pé, depois o outro, pronto estou caminhando, e para frente.

Ainda vou fazer grandes descobertas e responder ao Judson. “E eu? Eu estou muito feliz”.

terça-feira, 17 de abril de 2007

É uma pena

Já reparou como tem inúmeras músicas para os finais de romances? Difícil até escolher uma para traduzir o que se sente. Cabe tango, bolero, samba-canção, rock, depende de como a alma está. A minha está tentando fingir que tudo está em calma, que se saí muito bem sozinha, tipo bem-resolvida, independente. Logo eu, que tenho medo de dormir sozinha.
Mas tenho uma certeza, arrependimento e culpa causam pontadas de dor muito fortes, baby. E dessa vez, não posso te emprestar meus curativos, nem ter recaída.

É uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente, cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal-amados
Dos amores mal-vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer

Que é uma pena
Mas você não vale a pena

segunda-feira, 16 de abril de 2007

O Gran Finale

Quem disse que os finais são grandiosos, ou triunfais? Os finais são cruéis, frios, solitários, tristes e pequenos. Transformam tudo em nada em poucas palavras, poucas lágrimas, poucos olhares, um ato. Nos tornam tão pequenos, malvados, vazios, rancorosos, sujos, descartáveis, tolos.
Mas tudo que começa tem um fim. Todo mal se corta pela raiz. E há de se ter coragem para cortá-lo, ou as pragas voltam e quando se percebe já apodreceu tudo em volta. Não se acredita em mais nada. Não sente raiva ou amor, só um gosto amargo. Porque o amargo que luta pra descer na garganta está no fim da xícara de café, que já foi quente e gostoso, e no fim de uma história, que prometia ser parecida com as comédias românticas, em que a moça atrapalhada casa com um bonitão.
Só os livros e filmes tem Gran Finales. Ninguém vive feliz para sempre, mas ninguém morre de amor. Sai do carro, bate a porta, enxuga as lágrimas e se perde na estação. Amarga, amarga, e fim!

terça-feira, 10 de abril de 2007

Eu sou mais Cásper

Todo começo e fim de cada ciclo de nossa vida merece ser comemorado. E quando a festa é boa (e não tem como não ser, sendo cheia de amigos queridos), merecia não acabar.

Além de ser comemorado todo fim merecia um balanço. Ainda estava na ressaca da festa de formatura, quando uma espécie de prima distante, aos 17 anos disse que prestaria vestibular para jornalismo, perguntou se valia a pena o curso e a faculdade. Tempo para pensar. Ô perguntinha difícil. Eu odiei aquela faculdade. Salas quentes, corredores esfumaçados, pessoas muuuito mal-humoradas arrogantes, laboratórios insuficientes para o número de alunos e muitas vezes obsoletos, filas quilometricas para impressão e xerox, mensalidade galopante e vários professores que deixaram a desejar.

Alguns amigos que se formaram comigo recebem salários piores do que estagiários, outros desconhecem o que significa vida (aquilo que a maioria das pessoas aproveita aos fins de semana, feriados, dias santos). Dificil indicar um curso e uma faculdade assim. Mas, jamais me arrependerei, aos 17 anos eu não tinha nem dúvida do que queria. E apesar de todas as minhas reclamações, o saldo foi bom. Mesmo com todos os problemas, acredito que fiz uma das melhores faculdades do país. Recomendei, sem tanta convicção, mas recomendei a vestibulanda, desejando boa sorte.

Dois dias depois, um colega do trabalho, que não fez o mesmo curso e faculdade, tentou me provocar dizendo que a Metodista (aquela que fica lá na roça) é melhor do que a minha. Conseguiu me provocar. Pela primeira vez, tive a sensação de orgulho de minha origem (teve ter sido a proximidade com a formatura).

Lembrei que no fim do primeiro ano, eu e a Cabis odiavamos a Cásper, aquele lugar tão hóstil. Prometemos que já que não tinha jeito, a gente ia se esforçar pra amar aquela faculdade. Amar é forçar a barra, mas passamos a tolerar bem mais. E ela com certeza foi uma das melhores coisas da faculdade, e hoje uma das pessoas que mais torço e que mais me identifico.

Além dela e de mais meia duzia de pessoas que valem a pena, a minha faculdade merece ser uma das melhores porque:

1) Tive aula com o Clovis Barros Filho, o melhor professor de comunicação do Brasil. E somos a única faculdade de jornalismo com aulas do mestre;
2) Temos jornais laboratórios de dar orgulho - programa em TV aberta, rádio universitária AM, uma revista riquissíma e muito premiada, e um bom portal. (ok, a faculdade lá da roça e a que não quero nem de graça também têm bons laboratórios, mas não tem TV aberta, tá)
3) Meu TCC foi muito prazeroso e um grande aprendizado prático. Não fui obrigada a fazer monografia, que algumas faculdades exigem.
4) Último e mais importante - temos 40 alunos por sala x 80 da Metô e 50 da USP.

Tem gente que não acha que isso é lá grande vantagem, mas faz uma diferença incrivel. Isto porque eu fui mais do que um RA. Os professores sabem o nome de cada aluno, e pelo menos o Luis Mauro, Wellington, Igor Fuser, Rosangela Petta, sabem qual meu estilo, trechos da minha vida, qual meu ponto forte e o que preciso melhorar. E eles só conseguem fazer isso porque tinham tempo de olhar pacientemente todos os detalhes do meu texto, rabiscá-los e criticá-los, e até mesmo, sentar comigo e conversar o que estava bom e o que estava ruim.

E faz tanta diferença ter poucos alunos por sala, porque educação e conhecimento não se constroem passivamente, sentado ouvindo um bom professor. Com excessão de aulas mal preparadas, todas eram feitas em forma de debate e com participação da maioria dos alunos. Aprendi muito na minha sala de aula, ouvindo os meus colegas, que como a Toquinho falou - Vão sujar os sapatos e ser grandes escritores, reporteres, poetas, documentaristas, profissionais, pessoas.

Acho que valeu a pena.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Meu medo

Lembro que há 3 anos e meio, a gente estava sem se falar há algum tempo, nenhuma briga, mas um ressentimento. E então ele me disse um monte de desaforo em um e-mail. Respondi na mesma moeda, xinguei todas as gerações que eu podia me lembrar e escrevi no título "Quem fala o quer, ouve o que não quer" - tipo briguinha de criança. E em uma atitude massoquista que conquistou essa doidinha, ele responde "Quem fala o quer, ouve o que quis", dizendo que era isso que queria, que eu não me esquecesse dele, não importava como fosse. O insuportável era imaginar que ele ia passar em minha vida e depois de uns meses eu não lembraria o nome dele.
Que tolo. Eu sabia que jamais me esqueceria dele. Temos isso em comum, um medo terrível de sermos esquecidos, talvez nosso maior medo. Agora, sou eu que estou tremendo. Minha vontade é estar nos discos (sim, ele é tão especial que tem vitrola e vinis), nos livros, na mochila, num album, em cartas que ainda não escrevi, e-mails não apagados, quando ele comer uma lasanha, na memória, sempre por perto, mesmo que ele esteja tão longe.
Eu não peço mais nada, todos os perdões estão dados pelos anos que passaram e pelos que virão. Eu só quero que ele lembre de mim, todo segundo e pra sempre.

Eu quero ser essa nega!


Tem duas semanas que fui ao show da minha musa: Elza Soares. Este ano, ela completa 70 anos, com 63cm de cintura e um rebolado de dar inveja nas meninas de 20 anos. (Vale dizer, que esperei um mês pelo show, pois ele havia sido cancelado porque ela teve um derrame). E ela se recupera quebrando as cadeiras do palco, com uma energia dificil de acompanhar. Encapetada, ela consegue ser sexy, com caras e bocas (mesmo repuxadas), e fazendo charme com a cintura e quadris. Se sambar for pecado, essa nega tem camarote pro inferno.
A voz é impecável. Acho que Deus inventou as vogais, e pensou: “Não é bem isso que eu queria”. Aí, inventou a Elza e tudo ficou perfeito, todos os Is, encontraram seus pingos certos na voz dela. A minha Fitzgerald à brasileira. A negra do nosso samba, que dá vida a mulher do malandro (Ai, como é de arrepiar ele cantando “Meu Guri” – parece que foi ela que fez, mas não foi).
Ela ainda consegue ser atual e tem muita coragem pra isso. No show, canta dois raps, um dos Marcelo Yucca “A carne mais barata do mercado é a minha carne negra” e faz uma versão maravilhosa do “Eu só quero é ser feliz” – misturado a canção infantil “Se essa rua fosse minha” – difícil de descrever como ficou perfeito. E Noite Ilustrada aplaudiria de pé ao ver seu samba virar tango “Ali onde eu chorei qualquer um chorava, dar a volta por cima como eu dei quero ver quem dava” – é um samba lindo, famossísimo, mas tem a dramaticidade de um tango, muita sensibilidade para notar isso. E para o Gran Finale, nada melhor – Salve a Mocidade, Salve a Mocidade!!! – nossa escola Verde e Branco.

Pra conferir o novo CD - Do Cóccix até o pescoço (música homônima linda por sinal)

Apoio Matilde Ribeiro

Na última quarta-feira, acordei com a CBN repetindo inúmeras vezes e debatendo, ou melhor criticando, a declaração de Matilde Ribeiro, Ministra da Secretaria de Política da Promoção da Igualdade Racial.

BBC pergunta: E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?

Matilde responde: Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

A resposta da ministra gerou polêmica ao dizer que o negro que se insurge contra um branco tem uma atitude natural, e não racista. A afirmação foi criticada por alguns como Cony e Xexeu que acreditam que a ministra incentivou o racismo de negros contra brancos. E ainda diziam: "Logo ela que deve promover a igualdade, fala sobre a desigualdade".

A assessoria da ministra tentou se retratar e tudo mais, mas eu estou com ela. Vale dizer, que enquanto ela fez a declaração, deixou bem claro, que não incentivava o preconceito e discriminação de forma alguma.

Para se promover a igualdade é preciso enxergar onde há desigualdade. Por isso, não vale dizer que não temos racismo. Matilde enxerga que há de ambos os lados. Porém um lado tem a ação, o outro a reação. A reação é natural, não é racismo, e ela está certa. Por que afinal, não é o negro que tem o poder e com isso exclui o branco, mas o contrário. Além disso, os negros não açoitariam brancos se não tivessem sido açoitados. Afinal, eles não escolheram viver no Brasil, foram trazidos a força.

Aí os comentaristas disseram: "Mas não vivemos mais na escravidão, a realidade é outra".
É claro que os tempos mudaram, mas uma frase dessa só serve para fingir que tentativas de homicidios de africanos como aconteceu com os estudantes da UNB recentemente não existem, que os negros não apanham mais de policiais do que os brancos, e que são excluídos de boa parte dos lugares de brancos. Conte quantos negros tem em sua sala de aula, ou na gerencia de sua empresa, ou mesmo morando em seu prédio.

Lembro que quando eu era criança e tinha só uma ou duas coleguinhas negras, tinha certeza que vivia em um país de maioria branca. Mas eu estava errada.

Pra mim, dizer que a ministra incentivou o racismo, é o mesmo que criticar o feminismo ou movimentos GLBT por serem contra o "macho", como se fossem contra a "maioria". Não são contra a maioria, são contra a maioria econômica e política (assim como disse a Matilde). São contra quem está no comando, os açoitando e na contramão de seus direitos.

Fico contente que alguém que não feche os olhos para as desigualdades que existem hoje, seja nossa ministra para promover a igualdade em um futuro próximo.