terça-feira, 24 de julho de 2007

Rasgando o diploma

Pedi o diploma jornalista na faculdade e não fui buscar. E nesses dias pós-acidente da TAM deu vontade de nunca mais pegá-lo.


- Primeiro, porque apesar de saber que o Marco Aurélio Garcia e toda sua corja são repulsivos, é importante deixar claro, que se você está na sua sala e faz um gesto obceno, você não é um criminoso. Agora, se você é cinegrafista e utiliza um super zoom para gravar um assessor da presidência, ou um operário, dentro de um lugar privado, você está cometendo um crime. E se você é editor de um telejornal publicou essa imagem ilicita, também é crimoso.


Jornalistas criminosos adoram justificar seus atos em nome do direito de informação do público, do interesse do cidadão. Oras, mas como justificar um crime contra um ato vexatório, porém não criminoso?


- Em segundo lugar: Eu até concordo que o relato de uma tragédia, ou uma guerra, não pode ser limitada a números. Afinal, quem morre é um garoto que gostava de macarronada, uma senhora aposentada que fazia doces para seus netos, etc. Agora, se para fazer esse relato for preciso adentrar velórios e o IML para colher imagens de desespero de familiares que acabam de receber a notícia de uma morte trágica, eu prefiro rasgar o diploma.


- Eu sinto vontade de rasgar o diploma quando vejo diariamente ao longo de 10 meses a cobertura do caos aéreo. Um tema sem dúvida importante, afinal impacta a economia, mostra o grande relapso em investimentos em infra-estrutura, é desrespeitoso com cidadãos e consumidores e ainda por cima pode ter sido uma das causas da queda de um ou dois aviões de grande porte.


O que me revolta é a disparidade entre essa cobertura e as raras notícias sobre as mortes por neglicencia e falta de investimento em hospitais públicos. Das duas uma, ou já estamos tão acostumado com o caos da saúde pública a ponto disso não virar mais notícia, ou damos mais atenção ao cidadão que além de impostos, também paga passagem aérea e convênios médicos?


Obs: Importante lembrar que orçamento público é um cobertor. Se passarmos a investir mais em aeroportos, teremos de deixar de investir em algo. Eu espero que seja a campanha para a Copa que fique sem verba, e não a saúde pública.


- Eu quero rasgar meu diploma quando a imprensa desrespeita familiares de vítimas (em nome do respeito pelas vítimas) e mostra imagens de uma funcionária da TAM Express se jogando do parapeito do prédio. Uma imagem de filme de terror, que não agrega nada a conclusão do desastre. A última coisa que eu gostaria de ver na TV era a minha filha, ou mãe, ou irmã, morrendo.


- Eu vou rasgar meu diploma, porque as mortes do Complexo do Alemão e as chacinas da Zona Norte (tão próxima da comovente de João Helio) foram noticiadas com frieza e renderam apenas notas. Eu também quero saber se os garotos que morrem nas periferias gostavam de macarronada, queriam ser bombeiros, ou tinham namoradas apaixonadas. Mas nesse caso ninguém foi ao IML ou velório. Nem vi o rosto das mães deles.


O que a imprensa tem feito nos últimos dias e meses é um sensacionalismo barato, criminoso, covarde e lobista. Embuida em romantismo juvenil, escolhi a profissão errada.

Narrativas de Conflitos

“Antes de ver uma guerra de perto, você acha que se trata de vitória e fracasso. Depois, você descobre que se trata somente do fracasso do espírito humano".

Robert Fisk, correspondente no Líbano do jornal britânico “The Indepent”, durante a mesa “Narrativas de Conflitos” na Flip 2007.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O fim dos CDs

Comprei um CD original do Bezerra da Silva por menos de R$10. Chego em casa animadíssima com a minha aquisição e minha irmã diz - Você é a última pessoa do mundo que ainda compra CD.


Sempre senti pouca culpa por comprar um CD pirata, afinal me sentia roubada pelas gravadoras também. Se um album original e inédito do Calypso é vendido por R$10, porque os nomes menos populares custam R$30, 40, 50? Em contrapartida, o piratão saí por R$5. As gravadoras jogaram a toalha e perceberam que não conseguem concorrer com o comércio ilegal, muito menos com os sites de downloads não permitidos de músicas. E na estratégia de guerra, se o inimigo é mais forte que você, alie-se a ele.


É isso que as gravadoras estão fazendo. Descobriram tardiamente, que a música em si, tocada no CD, na rádio, ou no MP3, é só um meio de divulgação, que o que enriquece e sempre enriqueceu os artistas são os shows (até porque os cantores eram roubados pelas gravadoras, com direitos autorais ridiculos e vendas de CDs mal contabilizadas).


Agora, as gravadoras também agenciam seus contratados nessa nova área, e aproveitam a pirataria como divulgação. O próximo álbum de Prince será entregue gratuitamente junto com um jornal inglês, dando fim a pirataria. O cantor é um dos mais bem pagos por seus shows, e sem gastar com seus CDs, os fãs poderão pagar mais caro pelo ingresso para assisti-lo ao vivo. Lucro. Shows lotados e cachê mais alto, graças aos álbuns gratuitos. (Britney Spears e Cia vão ter que aprender a cantar ao vivo agora)


O Teatro Mágico, fenômeno de público no cenário indepedente, se deu muito bem, pensando assim, sem precisar de uma gravadora para abocanhar seus lucros. O seu CD – Só para Raros - custa R$5 e o DVD saí por R$10, tudo feito de forma caseira. Resultado: shows lotados e cachê de R$40.000, equivalente ao superpop Charlie Brown Jr.


Novas bandas já lançam singles em pen drives e o Shank já ganhou até celular de ouro, por ser a banda que mais vende músicas pelo celular. Eles lucram e a gente ganha.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Reencontro

Enquanto esperava você chegar, pensava com o fundo do copo: Eu gosto tanto dele. Tenho certeza que você nem sabe. É que te conheci num momento dificil, que eu precisava tanto de alguém pra me ouvir. E você ouvia tão bem. Lembro que esquecia do tempo nos sábados a tarde. Esquecia da fome e ficava ansiosa pra gente conversar de novo. Gostei de cara de ti. Amizade à primeira vista. Você era tão gentil que eu poderia ser imperfeita e você não contaria a ninguém. Acho que não quero mais contar minhas imperfeições para você também. Por que você é tão perfeito em tudo?


Você foi até Nova York, o centro do mundo. Eu fui só até o Rio e me dei por contente. Não que eu quisesse ir para Nova Iork, pra dizer a verdade, nunca quis. Pelos postais tenho certeza que o Rio é mais bonito. E aqui não neva, o que torna tudo mais divertido. Mas era nítido que eu era uma caipira perto de você. Tão sem história. Minha vontade é que não perguntasse nada sobre mim. Mas é um garoto gentil, se mostra interessado, faz piadas, abre sorriso ao me ver. E sou
péssima para inventar ou incrementar minhas próprias histórias. Nada de tão bom ou ruim tinha acontecido em 2 anos. 2 anos e tão poucas histórias.


Bem, algo tinha mudado. Nós dois tivemos corações partidos. Você não me contou muito bem, talvez nem tivesse mais tão partido. Não consegui entender como. Suspeitei que disfarçava, que chorava sozinho, mas parecia à vontade com o que contava, como se não estivesse mentindo. Eu estava com os caquinhos recolhidos e essa era a minha chata história sobre como meu coração partiu e como consegui recolher meus cacos. Sei que é chato, mas é uma história de vitória pra mim. Você tinha muitas outras. Muitas meninas e mulheres que vivem atrás de ti. Até telefonema de Roma recebeu. "Pra você que é mulher então, deve estar bem mais fácil". Menti. "Claro. Sou menina, jovem, solteira, nem preciso me preocupar com isso". Não, não está nada fácil. Não é fácil se interessar por alguém. E é ainda mais difícil tornar-se interessante.


Me responde, como consegue ser tão amado? Eu sempre quis ser assim, sabe? Disputadíssima. Achava que era só eu ser bonita que seria. Com o tempo, preferi acreditar que não, que eu podia ser uma garota simpática, um pouco inteligente que alguém ia gostar de mim. Até gostaram, viu. Mas não me acho mais nem simpática, muito menos inteligente, e o pior, cheia de defeitos e com alguma tristeza nos olhos.


Você é sempre tão feliz. Sozinho ou acompanhado. Como consegue? Será que eu vou ser assim um dia? Será que a gente se encontra novamente? Acho que não, mas gostei de te ver feliz.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Eu e o gato



- Gato, qual caminho devo seguir?

- Onde quer chegar menina?

- Não sei

- Então qualquer caminho te leva a qualquer lugar.

Em cascata

A mesa "Violência" da Flip teve como debatedores além de Guillermo Arriaga (Mexico), Denis Lehane (EUA) escritor da obra que inspirou o filme "Sobre Meninos e Lobos". Nos filmes, 21 gramas e Babel (roteiros de Arriaga) e Sobre Meninos e Lobos, há um emaranhado de histórias paralelas que se cruzam por um fato comum que vai cascateando e afetando a vida de outras pessoas. Essa é a visão comum sobre violencia que os dois autores têm.


Em um filme de ação, um soco ou um tiro acabam em uma cena. Para Arriaga e Lehane, não. Todo ação de violencia muda a vida de alguém, essa pessoa nunca mais será a mesma. E em seus filmes, essa história continua.


Os personagens de Tim Robins e Sean Pen tiveram suas vidas transformadas ao viver a violencia na infancia em "Sobre meninos e lobos". Em Babel, um tiro de rifle em Marrocos afeta a vida de uma família americana e sua empregada mexicana.


O que eles escreve na ficção, pôde ser visto de forma real na mesa entitulada "Sobre meninos e lobos" com Paulo Lins (Cidade de Deus) e Ishmael Beah (Serra Leoa - Muito longe de casa). Ambos são sobreviventes de guerras civis, declaradas ou não. E sabem exatamente como o convivio com a violencia afetou suas vidas definitivamente.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Histórias de um caçador

Desde os 12 anos, Guillermo Arriaga caça. Na primeira vez que ele e seus amigos pegaram em um rifle foram testar o alcance em um carro. Por pouco não fizeram o arriscado teste. Desse episódio surgiu o enredo de Babel.


Arriaga caça até hoje. Ele já foi vítima de violência, foi espancado por um desconhecido com um taco de beisebol e viu muitos outros casos com seus vizinhos e conhecidos. Ele também vive a violência ao caçar, fica próximo da morte, e tem a vida de um ser em seu domínio. A caça envolve poder, sangue e proximidade com a morte. Sem dúvida, um hobbie condenável, até mesmo para uma hipocrita carnivora como eu, que prefiro pensar que existem pés de sanduíches de mortadela.


Ele sabe que todos os condenam, mas arrumou uma "explicação". Contou na mesa "Violência", durante a Flip 2007, que uma tribo indígena acredita que o homem possui duas almas, a alma leve e a alma pesada. Quando sonhamos, é a alma leve que saiu por aí e depois voltou. E a morte acontece quando a alma pesada saí de nosso corpo. Antes de morrermos, a alma leve tem de ensinar a alma pesada a sair do corpo. E a leva até uma árvore e depois até a uma mulher menstruada, porque ela significa a vida que poderia ter sido e não foi, a beira entre a vida e a morte.


Arriaga conclui que o escritor é justamente a alma leve. Conhece a beira da morte e retorna para contar como é. O autor mexicano tem o sangue nas mãos e nos olhos quando vai a caça, e talvez essa convivência com a beira da morte o faça ser um dos mais brilhantes escritores sobre Violência, seja em seus filmes ou em seus livros, como "O doce aroma de morte" que leu trechos no evento. Talvez só quem conviva com a morte tão cotidianamente pudesse escrever sobre ela.


Obs: O roteirista não atendeu aos pedidos e não contou o que a japonesa escreveu no bilhete para o policial.

Escritor para cinema


Guillermo Arriaga (México) é escritor, mas ficou famoso internacionalmente por seus roteiros (Três Enterros, Amores Brutos, 21 gramas e Babel). Ele defende que não é roteirista, mas escritor para cinema, pois não faz adaptações, só escreve histórias originais, baseadas em fatos que viveu.

Ele reclama da injustiça. Ora se uma peça é de seu autor, se um livro é de seu autor, porque um filme, que precisa substancialmente de uma boa história, é um trabalho atribuido ao diretor. Concordo com ele, injusto.

Reality shows, fofocas e literatura

No Roda Viva de ontem, edição especial Flip 2007, Paulo Markun pergunta a Amos Oz se os reality shows prejudicam a literatura, uma vez que as pessoas vêem tudo e perdem a capacidade de imaginar.

Amos Oz é um reconhecido pacifista e diferente de grande parte dos "cults" não crucificou os realities shows, ou fofocas de celebridades. Pelo contrário. Disse que programas como estes são motivados pela curiosidade nata dos seres humanos. E para ele, a curiosidade é uma virtude, que salva o homem da intolerancia, que ele tanto abomina. O escritor acredita que a curiosidade é o primeiro passo para se conhecer o outro, aceita-lo e respeita-lo.

O autor ainda diz que a fofoca é prima da literatura, pois ambas lidam com a curiosidade e com o ato de se contar boas histórias. A única diferença entre elas seria a profundidade das discussões. Enquanto a fofoca atinge apenas o supercifial, a literatura se aprofunda em seus personagens, histórias e análises, por isso essas primas nunca se encontram.

Viu só, folhear a Caras e espiar o Big Brother pode ser um ato nobre. Será que tem Big Brother Israel?

Cantanda

Amos Oz, o escritor israelense que participou da Flip 2007, compara o processo de criação de um livro a velha e boa cantanda. Quando o escritor se depara com a folha em branco, em que tem que começar a escrever, sente a mesma insegurança como se tivesse que conquistar uma moça bonita em um café ou bar. É a conquista do leitor(a).

No ato, tem de falar algo inteligente, para alguém que não conhece nada sobre você, e que talvez nem queira conhecer. A primeira frase tem de ser interessante o suficiente para que a moça bonita do café ou a leitora tenha vontade de continuar a ouvi-lo. Se fracassar, a bela sairá andando, sem nem olhar para ele, ou largará o seu livro na primeira página.

As escritoras devem perder muito conhecimento por ficar em uma posição confortável de não ter que elaborar boas cantandas aos moços bonitos dos cafés. Acho que vou passar a canta-los.

Mudando de assunto

Pausa nos posts sobre a Flip 2007

Fui convidada para participar de uma seção de Transformação de uma revista feminina. Eles dão um trato em uma mulher e colocam a foto do antes e depois, mostrando que um corte de cabelo pode fazer milagres por ela. Vou mudar por fora, talvez radicalmente, mas não tenho mudado por dentro.

Há cindo anos, conheci 3 queridos amigos: Thiago, Vinicius e Judson, que continuam ótimos parceiros. Outro dia, estava conversando com o último, e ele comentou como ele e os meninos tinham mudado para melhor ou para pior. Mas, concluiu que eu não havia mudado nada, ou quase nada, nesses anos.

Ontem, outra pessoa importante pra mim, que me conhece há 4 anos, fez a mesma constatação. Fiquei preocupada. Desde os 18 anos, não piorei, nem melhorei. Empate seria bom resultado nesse caso?
---------------------------------------------------------------------------
Lembrei de um professor no primeiro ano da faculdade, que falou que seus alunos ficavam irreconheciveis entre o primeiro e quarto ano. Eu não queria me parecer com as pessoas do quarto ano, mas pensei que seria inevitável. Achei que ao longo do curso eu fosse me transformar de uma moleca de risada espalhafatosa para uma jornalista com ar de âncora. O diploma veio, mas eu continuo a mesma moleca, com a mesma risada.

Nelson Rodrigues

O homenageado da Flip 2007 foi Nelson Rodrigues, que muito mais do um tarado, foi o maior dramaturgo brasileiro, talvez do muuundo se considerarmos somente a sua época. Como só pude ir para Paraty na sexta-feira, perdi a sessão de abertura e homenagem a ele e uma das mesas que aconteceria no sábado foi desmarcada.
Ou seja uma decepção para mim, já que não vi nada sobre o Nelsão. Nem peças pelas ruas de pedras, naaada. Teve uma leitura de Beijo no Asfalto no sábado a noite que estava chatíssima, ainda mais naquele frio.

Mas além de suas peças brilhantes, Nelsão foi um jornalista dos bons, daqueles bem mentirosos. Dizia que o defeito dos jornalistas é que mentem cada vez menos. E como esta, pouca gente tem tantas frases memóraveis como Nelsão. Robei essa daqui do Blog do Tas que circulou bem por Paraty com seu chapeu de palha.

O rico e o pobre são duas pessoas.
O soldado protege os dois.
O operário trabalha pelos três.
O cidadão paga pelos quatro.
O vagabundo come pelos cinco.
O advogado rouba os seis.
O juiz condena os sete.
O médico mata os oito.
O coveiro enterra os nove.
O diabo leva os dez.
E a mulher engana os onze.

Parece que a sociedade brasileira continua igualzinha, cheia de Monicas Velosos.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Frases da Flip para colocar no Orkut

"O bobo tem tempo para ver, ouvir e olhar o mundo. Vê coisas que os espertos não vêem... E aqui somos todos bobos” - Paulo José diz a citação de Clarice Lispector na Mesa dos dramaturgos na Flip

"A dor é inevitável. Sofrer é opção" - Guillermo Arriaga - escritor e roteirista.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Mais sobre a mesa "Sobre meninos e Lobos"


Ishmael Beah, 26, (escritor de Muito Longe de Casa, Serra Leoa) contou que seu país não consta na lista dos aeroportos do Brasil e da Inglaterra. Provavelmente, ele seja o primeiro Serra Leonino (será que é assim?) a vir ao Brasil. Se a gente nem conhece Serra Leoa, quem pensa em Serra Leoa?

O autor diz que só depois de 8 anos de guerra civil, Serra Leoa foi percebida pelos demais países. Até então, ninguém usava a palavra genocidio, ou seria preciso agir. Não agiram. Hoje, é muito mais dificil terminar com a guerra, pois já nem se sabe mais porque se começou e praticamente não há mais diferenças entre o exercito e os rebeldes.

Muitas vidas poderiam ter sido preservadas, muitas infâncias também. Depois de 8 anos, há toda uma geração criada pelas drogas e violência, totalmente sem perspectiva. Para garotos como Ismael, as armas e o exercito substituiram a familia dizimada e a presença da morte é cotidiana. Ele conta que se sente feliz quando dorme, porque não podia fazer isso durante a guerra.

Obs: O livro "Muito longe de casa" desapareceu da livraria da Vila, montada para Flip, logo após seu debate.

De quem é a culpa?

Paulo Lins falou "Eles não têm culpa", referindo-se ao exercito de crianças do tráfico. "E de quem é a culpa?" - pergunta o jornalista carioca Fernando Molica, que mediou a mesa "Sobre meninos e lobos".

Paulo responde que é a hipocrisia que permite que darmos as costas para o que está tão visivel. Quando outros países convidam Paulo para ir a encontros, congressos, debates, ficam impressionados como o brasileiro vive normalmente com essa realidade. Como pode o carioca passar todos os dias pelo Vidigal e achar aquilo tão natural? (não diferente em SP)

Paulo diz que todos se comoveram quando João Helio foi brutalmente arrastado por um carro. Afinal, se aconteceu com ele, pode acontecer comigo, com você, com qualquer um. E isso é uma grande tragédia.

Mas na mesma semana, uma mulher grávida foi a 3 hospitais públicos no Rio procurar atendimento. Não conseguiu e morreu. Isso também é uma grande tragédia, mas não comoveu, não foi debatido, não deu capa de revista, porque eu e você temos convenio médico. Então, não pode acontecer com a gente.

Depois de casos como o de João Helio, muitas Ongs fazem trabalhos para as crianças que estão na favela, para tentar minimizar a quantidade de incidentes, dando alguma perspectivas a esses jovens. E Paulo pergunta: e quem pensa nos adultos e velhos que estão na favela? Quem pensa na mulher grávida que morre por falta de atendimento médico?

De onde vem? II

A mesa entitulada "Sobre meninos e lobos", contou com o debate entre Paulo Lins e Ismael Beah, escritor de Serra Leoa, que aos 12 anos entrou para o exercito e foi resgatado pela Unicef desse terrível genocidio. Dois sobreviventes que contam suas histórias nos livros Cidade de Deus e Muito longe de casa.

Brasil e Serra Leoa vivem guerras civis. Uma declarada, outra não. Em ambas, meninos cada vez mais jovens perdem a conta de quantos mataram (incluindo o próprio Ismael). A longevividade desses meninos é cada vez menor. E a outra semelhança é que esses países não produzem armas. Então, de onde vem?

De Serra Leoa, o dinheiro para se conseguir as armas vem dos diamantes. No Brasil, vem das drogas. Sabe aquele anel exposto no shopping, sabe aquele fuminho que seus amigos puxam de vez em quando? Não são tão inocentes assim.

De onde vem?

Me irrita profundamente quando consideram um ato de coragem a ação da polícia do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão, para combate ao tráfico de drogas. Eu sempre me posicionei contra a legalização de drogas. Mas, se é proibido a policia tem que coibir. E se a policia coibe, mata mais com seus tiros de fuzis do que qualquer outra droga traficada nos morros (que matam os dependentes e destroem com tudo a sua volta).

Na Flip, Paulo Lins (Cidade de Deus)lembrou que, com ou sem a ação da polícia, a guerra nas favelas cariocas é uma constante. Comando Vermelho e Terceiro Comando estão em guerra há 25 anos no Vigário Geral, disputando o comando do trafico no Rio.

E como em um conto tragicomico, a guerra começou em uma partida de futebol entre os grupos. O jogador se preparava para bater o penalti. Atiram no goleiro. Ele cai. A bola entra. É gol.

Algo deve ser feito, não há como negar. Mas as ações da policia, só parecem ampliar essa guerra, em que morre inocentes, trabalhadores, famílias inteiras, além de bandidos e policiais.

Uma ação corajosa seria coibir a entrada das armas e drogas nas favelas. E não a saída delas. O que Paulo Lins perguntou foi de onde vem? Por que a Polícia Federal, tão admirada ultimamente, não tem operações efetivas a esse respeito?

O Brasil não produz armas, tampouco as drogas pesadas. Essa seria a pergunta e ação bem mais inteligente, efetiva, e justa, do que atingir o caminho inverso, da droga saindo do morro.

Flip 2007 - eu fui!

O melhor clima do muuundo! - mais de 30ºC em pleno julho, e friozinho a noite.
Os convidados de 4, das 5 mesas que assisti, são os melhores do muuundo! - o melhor roteirista (Guillermo Arriaga), os melhores jornalistas (Robert Fisk e Lawrence Wright), os melhores escritores (Paulo Lins, Ismael Beah, Mia Couto, Antonio Torres, Denis Lehane, entre outros que não pude assistir).
A cidade mais linda do muuundo!
A melhor praia do muuundo! (Ilha do Pelado)
O maior pastel do muuuundo! (30 cm, Bença Deus)
O céu mais lindo do muuuundo! - a Lua refletindo no canal e o céu estrelado.
A cidade mais cheia do muundo! (20 mil pessoas, em uma praça)
A praça mais bonita do muuundo! - cheia de crianças, com livros pendurados nas árvores, oficinas de pipas, e com a presença de Alice e seus amigos do País da Maravilha.
A maior concentração de bichos grilos do muuundo!
A maior concentração de chapéus do muundo!
Os restaurantes mais demorados do muuundo! (de 1 a 2 horas para trazerem o prato da casa, e 30 m para trazer uma cerveja).
O melhor sorvete do muuundo!
O quarto mais mofo do muuundo!
J.M. Coetzee é o autor mais arrogante do muuundo! (não quis dividir a mesa com ninguém, nem responder as perguntas do plateia)
Guillermo Arriaga é o homem mais gostoso do muuundo!
A melhor companhia do muuuundo! - Toco, Marmota e Carol - divertissímas!

Nos próximos posts conto mais sobre as mesas que assisti. E coloco fotos da cidade.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

É pra lá que eu vou



Um lugar encantado, em que habitam poetas, roteiristas, contadores de histórias, crianças, leitores. Todos caminham sem pressa por ruas de pedras, passando por casarões coloniais e pelo mar.

Volto na terça-feira, contando tudo sobre a Flip, Paraty, e a primeira viagem das cabeçudas.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Não por acaso


O filme é bom demais. Eu recomendo muitíssimo. Sensível, comovente, inteligente, mas não faz você sair do cinema deprê, porque trata de renovação. E saí mesmo renovada.

Além disso, adorei ver um filme filmado na minha cidade. Não que isso deixe o cenário bonito, muito pelo contrário, mas me causou uma identificação e isso é muito bom. Quando filmam a 23 de maio de cima e mostram os carros como formiguinhas, ou quando filmam as janelas do prédios de frente ao Minhocão, dá aquela sensação paulistana de "Eu sou uma formiguinha esmagada e minuscula no meio desse lugar enorme e caótico". Esse cenário ajuda a montar e enteder os personagens, principalmente o Enio, vivido por Leonardo Medeiros com perfeição.

Poderia falar muitas coisas incriveis do filme mas tenho um problema, ao assistir filmes com Rodrigo Santoro (o homem mais lindo do mundo) eu perco o senso crítico. Fico hipnotizada e pronto. Bem, o personagem do Rodrigo é Pedro Matos, simplesmente tudo o que eu sonhei pra mim. Não bastasse o visual que dispensa comentários, tem um estilo meio parrudo, tipo jogador de sinuca/camisa estampada/barba por fazer, (ah, e jogadores de sinuca são inteligentes, afinal é um jogo de estratégia e não de sorte ou força da tacada) e ainda por cima, tem os gestos mais delicados.

Em uma cena, a namorada briga com ele porque o apartamento é muito pequeno e não tem lugar para colocar seus livros, que estão encaixotados. No dia seguinte, ela chega e estão todos na estante. Ai, tudo o que eu queria era um Pedro Matos arrumando minha estante e fazendo pequenas surpresas grandiosas.

Em outra cena, ele diz para uma moça com quem toma um café. - Tem duas horas? (eu tenho, viu Pedro?) e a leva a um lugar alto (acho que é a Serra da Cantareira) para ver a paisagem. Ela até chora, eu não faria diferente.

Aí, ele acorda pela manhã e fala "Vou fazer um omelete. Quer?" (meu deus, ele até cozinha) Mas ela não quer omelete, quer café. Ele não a ouve. Ela vai embora. Ele corre (tipo herói mesmo) e leva a garrafa térmica com café até o apartamento dela. (uau, ele até a ouve e faz seus pequenos desejos de forma surpreendente).

ai, ai!

Por acaso

Por acaso, encontro alguém parecido com o Pedro Matos no metrô. A gente já tinha sido apresentado, até tomamos umas cervejas com amigos em comum. Eu aceno de dentro do trem. Ele, na plataforma, demora para me reconhecer. Chega até a porta e diz "vem". Eu salto na estação que não é a minha, depois do sinal de fechar das portas.

Tenho alguns minutos com ele até o próximo trem chegar. Alguns minutos em que ele iria olhar só pra mim. Ai meu deus, o que faço nesses minutos, olhando nos olhos dele. Não sei, não sei.

- Onde está indo?
- Vou tomar uma cerveja com uns amigos.
(me leva?)
- Vou ao teatro.
- Sozinha?
- Com uma amiga
(Tem duas horas? Tem o coração livre? Eu tenho, viu? Ai, esses olhos pretinhos assim!)
- E tá tudo bem?
(que droga essa frase começa a se repetir e não temos nada pra falar)
O trem chega.
- Então tchau.
Abraço (hmm, cheiroso)
- A gente precisa combinar outros chopps, aquele foi muito rápido
- É precisamos, respondo
(pra quê? Para falarmos nada? Mas bem que eu torci para outros acasos me fazerem ver os olhos pretinhos do Pedro Matos de novo, mesmo sem saber o que falar quando olho pra eles. Acho que vou tentar o msn. É mais tranqüilo)